O FILME FELIZ DA MEMÓRIA
por António Gregório
O
Emir Kusturica mostrou-me que a felicidade é
uma coisa muito suja, muito ruidosa, feita de
peças que não servem umas nas outras
mas que só todas juntas funcionam. Dito
de outra forma -- ele faz o desenho para eu perceber
melhor --, a felicidade é um dos mecanismos
mais disfuncionais do mundo; tão disfuncional
que nem é correcto chamar-lhe «mecanismo»:
O Mia Couto, se calhar, chamar-lhe-ia «desmecanismo».
Pois,
imagine, senhor Emir Kusturica -- ele muito atento
ao meu raciocínio --, eu pensava ser por
desleixo que mantinha o campo da memória
tal qual o soalho do quarto da minha infância,
onde tudo o que entrava era imediatamente desmontado
e baralhado, os parafusos escondidos debaixo da
cama, como se de propósito para que nada
pudesse voltar a encontrar a sua anatomia original.
E no fim de contas, ora espante-se -- ele espanta-se,
por delicadeza --, qual desleixo?, tratava-se,
e trata-se, de uma estratégia muito complexa
e muito funda que inconsciente delineei para ser
feliz. Repare: é onde nada parece possível
que, justamente, tudo pode ser possível:
só o caos será o berçário
de desmecanismos como o da felicidade: e é
um berçário assim que tenho andado
a construir, não acha carinhoso? -- moveu
a cabeça, pareceu-me um sim.
Vou
mostrar-lhe um bocadinho do que tenho dentro,
entre, entre, cuidado para não pisar as
memórias, algumas escorregam, mas pode
mexer-lhes à vontade: há mãos
que não sei a que olhos pertencem, vou
trocando; o rumor do vento numa árvore,
está a ver?, que pode ser nesta rua, ou
naquela rua, a ordem dos edifícios é
aleatória e isso que tem na mão
são passos que podem ser reorientados,
assim afastam-se assim aproximam-se, dá
imenso jeito; ah, caligrafias, deve haver mais
ali debaixo, e isso são palavras, veja,
veja, por exemplo, esta letra miúda nunca
me escreveu nenhuma destas palavras que guardo
nesta lata de café -- o Emir Kusturica
mete a mão lá dentro --, tirou um
amo-te?, foi à sorte ou viu primeiro?,
tanto faz, a lata está cheia com a mesma
palavra. Do seu filme guardei um ovo estrelado,
achei deliciosa a cena logo ao início,
a frigideira com ele em cima a passar de mão
em mão, o cheiro a água de lodo
e a suor de tronco nu, unhas encardidas, um homem
pendurado de uma corda, um crucifixo com cocaína,
ainda enjoo se recordo o vodka bebido da garrafa,
em jejum, havia dentes de ouro, demasiadas cores,
demasiadas tubas e trombones, gansos, um tipo
que caiu dentro de uma fossa e limpou a merda
com os gansos, eram patos?, uma gorda a arrancar
pregos com as nádegas, a ressurreição
do morto, tantas coisas, tantas coisas, e um final
feliz muito feliz de casamento apadrinhado por
uma gato preto, um gato branco. Não morri
de ciúmes, apaixonado como estava por ela,
porque, pretensiosamente, esqueci-me que eu era
eu e não ele, tornei-me nele e sei de cor
a boca dela e o jeito de entrelaçamento
dos seus dedos -- uma coisa única como
as impressões digitais, sabia?, não
há duas pessoas diferentes que entrelacem
os dedos de maneira igual.
Agora
que penso no assunto, estranho ela ter um nome
português num filme jugoslavo. Não
diga isso, posso tratá-lo por tu?, obrigado;
não digas isso, Emir, não estou
a fazer confusão nenhuma, o nome dela é
mesmo este, tem que ser este: com ele tudo desencaixa
perfeitamente e o ronco do motor do desmecanismo
soa tão delicado, ouves?, não te
sentes feliz?, passemos adiante. Ali tenho poemas.
Ruy Belo, conheces? Cuidado, a ordem dos versos
está trocada.
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Título:
Chat Noir, Chat Blanc
Realizador: Emir Kusturica
Actores: Bajram Severdzan, Florijan
Ajdini, Salija Ibraimova
Género: Comédia /
Romance
Outros: 1998, 135 min |
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António Gregório
é o autor do livro Uma
História de Desamor Treze Vezes
(Ambar,
2005)
Publicado em Junho de 2005