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Passatempo
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O Silêncio dos Inocentes.
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Apocalypse Always
por José Luís Peixoto
Eram
as sessões de cinema do inatel. Apareciam
anunciadas em papéis na montra dos cafés.
Era inverno e estava a chover. O meu cunhado tinha
ido jantar a nossa casa. Eu tinha doze ou treze
anos.
Havia também as sessões de cinema
da sociedade. Filmes de kung fu aos domingos à
tarde e às terças à noite.
Filmes pornográficos quando calhava. Eu
e alguns rapazes da minha idade já tínhamos
ido às sessões de cinema da sociedade.
Nos filmes de kung fu, chamávamos nomes
aos maus e acabávamos sempre a brigar à
porta da sociedade. Nos filmes pornográficos,
ficávamos calados e os mais velhos metiam-se
connosco e tentavam queimar-nos com cigarros acesos.
Era inverno e estava a chover. Jantávamos.
Eu disse: «vou sair, vou ao cinema».
Os meus pais não estranharam. O meu cunhado,
que andava mais pelo terreiro e que sabia mais,
desconfiado, perguntou: «qual é o
filme?». Quando respondi «Apocalypse
now», vi nos olhos dele que não estava
a acreditar. Como se me quisesse apanhar em falso,
disse: «vou contigo». Agradeci-lhe
a boleia, que me poupava ao incómodo de
fazer o caminho à chuva, e foi assim que,
para espanto do meu cunhado, acabámos sentados
nas cadeiras de madeira do centro paroquial a
ver os 153 minutos da versão original do
Apocalypse Now.
Lembro-me ainda dessa primeira vez: as explosões
no lençol, Wagner a ecoar nas paredes e
nos mosaicos frios do centro paroquial.
Mais tarde, vi o filme muitas vezes. Televisão,
cassetes de vídeo. Devia ter agradecido
à professora que, na faculdade, me obrigou
a ler «O Coração das Trevas»
de Joseph Conrad. Depois disso, voltei a ver o
filme várias vezes. Cassetes de vídeo,
cinemateca. Resisti o quanto pude à versão
redux. Acreditava que queria preservar qualquer
coisa que iria perder definitivamente no dia em
que cedesse vê-la. Acabei por ceder. DVD.
Hoje, quando alguém me pergunta qual é
o meu filme preferido, não penso muito.
Há já bastante tempo que decidi
que, a essa pergunta, iria sempre responder «Apocalypse
Now», como quando era inverno e estava a
chover, o meu cunhado tinha ido jantar a nossa
casa, eu tinha doze ou treze anos.
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Título: Apocalyse Now
Realizador: Francis Ford
Coppola
Actores: Marlon Brando,
Martin Sheen, Robert Duvall, Dennis Hopper,
Frederic Forrest, Laurence Fishburne,
Harrison Ford
Género: Acção
/ Guerra / Drama
Classificação:
M16
Outros: EUA, 1979, Cores,
153 min (202 min Redux version)
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José Luís
Peixoto colaborou com a Clarice na edição
de Março de 2005
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