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DIZ-ME QUANTO PESAS, DIR-TE-EI QUANTO AMAS
por Raquel Bulha


Não gosto de golfe. Melhor, não me interesso por golfe, há quem diga que é porque ainda não experimentei, outros dizem que é por não conhecer as regras mas o facto é que descobri recentemente que o ferro 3 (há quem lhe chame taco) é o menos usado. Aquele preterido face a todos os outros, resumindo, o patinho feio do golfe.

Ferro 3 é como se chama o novo filme do sul coreano Kim Ki-Duk. Devo-lhe esta nova informação preciosa. Preciosa não no sentido técnico da tal prática desportiva mas porque criou uma metáfora curiosa entre o ferro 3 e as coisas abandonadas, preteridas, que circundam as nossas vidas: “We are all empty houses, waiting for someone to open the lock and set us free...”.

Curiosa também esta insistência de Kim Ki-Duk em tornar as personagens silenciosas – o actor principal não diz uma palavra durante todo o filme – talvez porque, e isto já sou eu a divagar, tenham tanto a resolver que a palavra seria um acrescento perfeitamente desnecessário e supérfluo para o desenrolar da trama. Gosto desta palavra, implica interligação e fusão e, quando a uso, lembro-me sempre daquela manta de retalhos que a minha avó usava nas ricas sonecas depois de almoço; aquelas sestas forçadas de infância que agora... dariam tanto jeito! Adiante, Tae-Suk (JAE Hee) é solitário e perfeitamente tranquilo, ocupa casas vazias mas não é o normal “ocupa”. Diria que usa as casas temporariamente “abandonadas”, falo daqueles fins-de-semana fora ou até mesmo três ou quatro dias em trabalho. Dorme, alimenta-se, vê, tira fotografias e, na saída, deixa tudo exactamente como encontrou com o pormenor de lavar a roupa suja. Contudo, não contava que, numa dessas casas, o abandono fosse mais além e, no final, fosse também impossível deixar tudo exactamente como estava.

Este é apenas o segundo filme de Kim Ki-Duk que vejo – e há tantos outros (*)-, o primeiro chama-se Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera (já em DVD) e é esta a sensação depois de ter visto qualquer um deles, uma perfeita evidência que nada está, em mim, exactamente como estava. A sustentável leveza do amor, mais uma vez, surpreende e transporta-nos para uma outra dimensão, outro planeta. Aquele lugar onde peso é medida desconhecida e o espaço entre ficção e realidade não é para aqui chamado e, bem vistas as coisas, o amor, afinal, não existe.

 

(*)
1996 - Crocodile
1997 - Wild Animals
1998 - Birdcage
2000 - The Isle
2001 - Real Fiction
2001 - Address Unknown
2003 - Samaria
2003 - Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring
2004 - 3-Iron


 

 


Raquel Bulha é uma das vozes da Antena 3 - perfil

 




Publicado em Novembro de 2005