O
primeiro e mais óbvio é que as duas
partes em que o filme se divide não estão
ao mesmo nível. A primeira (até
ao suicídio de Ian Curtis) é perfeita.
A segunda é medíocre. Não
interessa aqui explorar porquê, até
porque os motivos são mais ou menos evidentes.
Queria apenas salientar as consequências:
se já é chatote que metade do filme
não seja grande espingarda, tudo se torna
pior por não haver um desenlace interessante
da brilhante primeira parte. É como, digamos,
conseguir ir para a cama com a Lolo
Ferrari e depois não só
não lhe acariciar os seios como não
obter um orgasmo.
O
outro defeito é a ideia de máquina
auto-alimentada que fica no ar. Como se a Factory
fosse um mundo à parte, como se Manchester
fosse um mundo à parte, como se os Joy
Division e os Happy Mondays fizessem “a cena deles”,
tendo como único ponto de partida aquele
concerto dos Sex Pistols e uma dose invulgar de
criatividade. Talvez não se possa pedir
mais de um filme em torno de uma personagem tão
dominante como Tony Wilson, mas é para
isso que cá estamos – vamos dar uma vista
de olhos ao que se passava no comprimento de onda
da Factory mas fora dela.
Como
não interessa ser exaustivo nem muito rigoroso
(para isso há este
artigo do Simon Reynolds), deixo apenas
aqui umas referências a álbuns para
o excelso leitor pedir aos amigos, comprar, sacar,
roubar. Qualquer coisa que conduza à audição.
São três, cada um titulado com uma
frase feita.

Do oito ao oitenta
Cabaret Voltaire – The Original Sound of Sheffield
78’-92’ (2002)
Sim,
Manchester estava a arder de criatividade. Mas
era 65 km a leste, em Sheffield, que o punk dava
cabeçadas com a electrónica experimental.
Os Cabaret Voltaire começaram por fazer
puras experiências de som, caóticas
e, sinceramente, atentados à paciência.
Depois incorporaram o ritmo e criaram pérolas
com “Nag nag nag”. No meio disto começaram
a vociferar e a interpretar a ideia de funk da
maneira mais estranha possível.
Esta compilação apanha fragmentos
das primeiras gravações comerciais
dos Cabs, que anteriormente se tinham dedicado
a trabalhos (ainda) mais abstractos. Não
se espere coerência. Tanto há material
para a biblioteca como para a pista de dança.

A força da técnica contra a técnica
da força
The Pop Group - Y (1979)
Acabadinhos
de sair do liceu (o período inicial da
banda foi condicionado pelos exames finais), os
Pop Group nascem em 79 e quando 81 acaba já
não existem. São, no entanto, e
se não concretamente pelo menos conceptualmente,
a metáfora do post-punk. Editam “Y” após
o seminal single “She is Beyond Good And Evil”
e, com isso, ganham um estatuto que nunca se chega
a manifestar em fama. “Y” reúne um conjunto
de canções pouco convencionais,
desencontradas, e sem grandes preocupações
de composição harmoniosa (antes
pelo contrário, são frequentemente
destrutivas). Nesta teia, encontram-se envolvidas
palavras de ordem e frases-força contra
a autoridade e os poderes instalados. Ditas de
uma forma quase cantada, as palavras soam a um
anarquismo senil, catalizado pelas guitarras ora
distorcidas, ora em registo funk. Os elementos
mais eruditos das suas “canções”
– os pianos em registo clássico, as secções
rítmicas jazzísticas – fazem justiça
à antítese que pretendem evidenciar
com o seu nome.

Na flor da idade
The Birthday Party - Junk Yard (1982)
Punk
literato e melancólico fazia tanto sentido
em 1982 como Snoop Dogg num coro da igreja em
2005. No entanto, era isso que os Birthday Party,
a primeira banda “a sério” de Nick Cave,
faziam. Um núcleo criativo era composto
pelo próprio, obviamente, pelo seu ainda
actual colaborador Mick Harvey, e pelo desgraçado
Rowland S. Howard (anos mais tarde mentor dos
These Imortal Souls, metade de um dueto com a
rainha Lydia Lunch e, finalmente, a solo, com
um único disco, “Teenage Snuff Film”, que
toda a gente devia ouvir antes de dizer que a
vida não lhe está a correr bem).
Aqui Nick Cave não faz canções
que os paizinhos não se importam que a
gente oiça na aparelhagem da sala. Ele
grita, ele berra, os rapazes fazem todos os barulhos
que sabem com a guitarras e a bateria também
não é tocada com festinhas. No entanto
o ritmo é bastante lento, muitas vezes
com quebras sobre quebras. Da exploração
dos limites da insanidade em “Dead Joe” às
alusões blues de “Big-Jesus-Trash-Can”,
este álbum é porventura a melhor
mostra da palete estilística que, dos anos
80 até hoje, tem vindo a ser utilizada
pela legião de músicos que gravita
à volta de Nick Cave.