24 HOUR PARTY POOPER - A vida para além da Factory
por Diogo Homem Marques


Quem não viu o 24 Hour Party People não merece viver. Se o caro leitor está nesse infame grupo de pessoas, não se mate imediatamente, ainda vai a tempo de obter a salvação: o DVD vende-se agora ao desbarato. Como todos os filmes com fortes referências culturais, este está sujeito a opiniões que são mesmo como vaginas (eis uma referência cultural). A minha - opinião, não vagina - é muito favorável. Não deixo, no entanto, de lhe encontrar dois grandes defeitos.

O primeiro e mais óbvio é que as duas partes em que o filme se divide não estão ao mesmo nível. A primeira (até ao suicídio de Ian Curtis) é perfeita. A segunda é medíocre. Não interessa aqui explorar porquê, até porque os motivos são mais ou menos evidentes. Queria apenas salientar as consequências: se já é chatote que metade do filme não seja grande espingarda, tudo se torna pior por não haver um desenlace interessante da brilhante primeira parte. É como, digamos, conseguir ir para a cama com a Lolo Ferrari e depois não só não lhe acariciar os seios como não obter um orgasmo.

O outro defeito é a ideia de máquina auto-alimentada que fica no ar. Como se a Factory fosse um mundo à parte, como se Manchester fosse um mundo à parte, como se os Joy Division e os Happy Mondays fizessem “a cena deles”, tendo como único ponto de partida aquele concerto dos Sex Pistols e uma dose invulgar de criatividade. Talvez não se possa pedir mais de um filme em torno de uma personagem tão dominante como Tony Wilson, mas é para isso que cá estamos – vamos dar uma vista de olhos ao que se passava no comprimento de onda da Factory mas fora dela.

Como não interessa ser exaustivo nem muito rigoroso (para isso há este artigo do Simon Reynolds), deixo apenas aqui umas referências a álbuns para o excelso leitor pedir aos amigos, comprar, sacar, roubar. Qualquer coisa que conduza à audição. São três, cada um titulado com uma frase feita.



Do oito ao oitenta

Cabaret Voltaire – The Original Sound of Sheffield 78’-92’ (2002)

Sim, Manchester estava a arder de criatividade. Mas era 65 km a leste, em Sheffield, que o punk dava cabeçadas com a electrónica experimental. Os Cabaret Voltaire começaram por fazer puras experiências de som, caóticas e, sinceramente, atentados à paciência. Depois incorporaram o ritmo e criaram pérolas com “Nag nag nag”. No meio disto começaram a vociferar e a interpretar a ideia de funk da maneira mais estranha possível.
Esta compilação apanha fragmentos das primeiras gravações comerciais dos Cabs, que anteriormente se tinham dedicado a trabalhos (ainda) mais abstractos. Não se espere coerência. Tanto há material para a biblioteca como para a pista de dança.



A força da técnica contra a técnica da força

The Pop Group - Y (1979)

Acabadinhos de sair do liceu (o período inicial da banda foi condicionado pelos exames finais), os Pop Group nascem em 79 e quando 81 acaba já não existem. São, no entanto, e se não concretamente pelo menos conceptualmente, a metáfora do post-punk. Editam “Y” após o seminal single “She is Beyond Good And Evil” e, com isso, ganham um estatuto que nunca se chega a manifestar em fama. “Y” reúne um conjunto de canções pouco convencionais, desencontradas, e sem grandes preocupações de composição harmoniosa (antes pelo contrário, são frequentemente destrutivas). Nesta teia, encontram-se envolvidas palavras de ordem e frases-força contra a autoridade e os poderes instalados. Ditas de uma forma quase cantada, as palavras soam a um anarquismo senil, catalizado pelas guitarras ora distorcidas, ora em registo funk. Os elementos mais eruditos das suas “canções” – os pianos em registo clássico, as secções rítmicas jazzísticas – fazem justiça à antítese que pretendem evidenciar com o seu nome.



Na flor da idade

The Birthday Party - Junk Yard (1982)

Punk literato e melancólico fazia tanto sentido em 1982 como Snoop Dogg num coro da igreja em 2005. No entanto, era isso que os Birthday Party, a primeira banda “a sério” de Nick Cave, faziam. Um núcleo criativo era composto pelo próprio, obviamente, pelo seu ainda actual colaborador Mick Harvey, e pelo desgraçado Rowland S. Howard (anos mais tarde mentor dos These Imortal Souls, metade de um dueto com a rainha Lydia Lunch e, finalmente, a solo, com um único disco, “Teenage Snuff Film”, que toda a gente devia ouvir antes de dizer que a vida não lhe está a correr bem).

Aqui Nick Cave não faz canções que os paizinhos não se importam que a gente oiça na aparelhagem da sala. Ele grita, ele berra, os rapazes fazem todos os barulhos que sabem com a guitarras e a bateria também não é tocada com festinhas. No entanto o ritmo é bastante lento, muitas vezes com quebras sobre quebras. Da exploração dos limites da insanidade em “Dead Joe” às alusões blues de “Big-Jesus-Trash-Can”, este álbum é porventura a melhor mostra da palete estilística que, dos anos 80 até hoje, tem vindo a ser utilizada pela legião de músicos que gravita à volta de Nick Cave.



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Publicado em Abril de 2005