UMA BANDA À PARTE - A MÚSICA EM QUENTIN TARANTINO
por Tiago Castro


Começemos, como que inspirando fundo antes de um salto acrobático!

Quentin Tarantino de flash à memória….

"Any of you fuckin' pricks move and I'll execute every motherfucking last one of you!"

Já com a imagem travada, a senhora assaltante Honey Bunny de arma em punho a rosnar aos demais à sua volta, junta-se a um dos mais intemporais genéricos do mundo do cinema! O surfin' guitar em toda a sua glória e negritude, abrasivo e que nos faz saltitar o coração e as mãos em forma de concha. Dick Dale & His Del-Tones com o instrumental Misirlou invadem-nos e transportam-nos para um mundo de histórias repletas de tenazes, ganchos e lixo, de onde sairemos apenas no final da matiné, despojados da polpa noir, que vai e que volta.

No negro da tela surge o título do filme, em amarelo rezingão, seguido pelos nomes dos actores.

Derrete a alma quando surge o nome de Harvey Keitel, o precioso momento em que o trompete irrompe, pulverizando-nos com a imagem de uma Los Angeles solarenga, perto demais do shot de tequilla e transpirada pela violência e actrizes em declínio a rastejarem à procura do último sedativo.

E tudo corre bem, até a transposição de estação de rádio, momento em que a música salta para o Jungle Boogie, dos Kool and the Gang, como se qualquer disc-jockey local quisesse impressionar algum grupo de jovens adolescentes, a caminho de um campo de basquetebol, para a tertúlia diária com o seu caro sócio do gang rival.

Jules e Vincent lá surgem finalmente, para a divagação sobre os costumes europeus, a treta emocionante do "Le Big Mac".

Tarantino percorre os clássicos, combinando imagem com música como poucos fizeram. Banda sonora original é coisa rara nos filmes de Tarantino. Talvez a composição propositada de Robert Rodriguez para Kill Bill: Volume 2, que custou apenas um dólar. Tarantino retribuiu o favor, realizando uma sequência em Sin City…. Curiosidades para afundar durante os próximos jogos psicológicos!

Houve um mestre, que ao mesmo tempo que capturava as imagens, o fazia consoante a música que queria que estivesse ali naquele preciso momento. Sergio Leone e o compositor Ennio Morricone trabalhavam tão proximamente, que Leone chegava a filmar já com a música feita e muitas vezes tocada no plateau, para que a câmara conseguisse combinar o sentimento da melodia com as imagens e acção.

Na retina estará por certo a sequência do cemitério, em que Tuco, denominado como vilão do western O Bom, o Mau e o Vilão, corre desenfreadamente à procura do ouro. A música Ecstasy of Gold agarra-nos como um poema sofrido, enquanto a câmara roda em si mesmo, numa estonteante pressa por um punhado de dólares. Leone fez questão de ter essa música a tocar no momento da filmagem e que por certo contribuiu para o fenómeno desta sequência.

Tarantino, cheio de clássicos dentro de si, da pura e mais profunda soul americana e não só, transforma os seus filmes da mesma forma que Leone.
Kill Bill foi a assumida homenagem de Tarantino aos seus mestres e aqui, mais uma vez consegue superar-se.



Desde o assobio de Daryl Hannah, personificando a zarolha assassina Elle Driver, que se funde com Bang Bang (My Baby Shot Me Down) de Nancy Sinatra, até ao incrível momento em que Lucy Liu entra pelo bar de Tóquio onde Uma Thurman a aguarda para uma batalha até à morte, tudo é deslumbrante. A entrada da lindíssima Liu é feita ao som de Battle Without Honor or Humanity, o funk de Tomoyasu Hotei, para o pezito dançar e logo de seguida se maravilhar com as extraordinárias cenas de pancadarias e esguichos constantes de sangue.

Para ver repetidas vezes e ouvir sem parar…

Quentin Tarantino transforma clássicos perdidos em êxitos imediatos, que não vivem sem as imagens. O risco que se corre ao ouvir as músicas isoladamente é recriar na memória aqueles brilhantes momentos do filme em que a canção esteve presente. Quem quiser percorrer a filmografia e discografia do legado de Tarantino, arrisca-se a isso, a descobrir um atalho para momentos de puro prazer e entretenimento. A magia da balela gigante que é o cinema!


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Publicado em Junho de 2005