1996
por Joana Linda


Misery and degradation and death and nothing that God or Satan could inflict would have parted us, you of your own will, did it. I have not broken your heart -- you have broken it; and in breaking it, you have broken mine.


Não foi em 1996, foi antes, não sei precisar o ano, talvez 1994. Eu tinha talvez 14 anos.

Comprei um livro no supermercado porque gostei da capa. Wuthering Heights (Monte dos Vendavais), de Emily Brontë. Havia duas edições, uma com Laurence Olivier e Merle Oberon na capa, um still do filme de 1939 realizado por William Wylder, e outra com Ralph Fiennes e Juliet Binoche, uma montagem com imagens do filme de 1992 realizado por Peter Kosminsky. Optei pela mais recente, essa escolha viria a determinar também qual das duas versões cinematográficas veria primeiro. O livro teve tal impacto em mim que me lembro de ficar acordada até ás 5 da manhã a lê-lo e de ir para as aulas às 8 com uma sensação estranha, como se parte de mim estivesse numa dimensão paralela, mais propriamente nas charnecas de Yorkshire em Inglaterra, e outra nos corredores apinhados de adolescentes aos gritos. Contei a história a todos os que se predispuseram a ouvi-la e a mais uns quantos que não demonstraram qualquer vontade de o fazer.

O próximo passo era obviamente ver o filme. Apesar de não corresponder às minhas expectativas, até porque raramente um filme consegue agradar completamente a quem já leu o livro que o inspirou, reunia um conjunto de pequenos elementos que embora não fizessem um grande filme, eram suficientes para eu o ver mais que uma vez e se misturar com o meu imaginário pessoal do livro. Ralph Fiennes como Heathcliff (depois disso foi difícil atribuir-lhe qualquer outro rosto que não o dele), a casa, os lugares, a fotografia, Julliet Binoche como Cathy e claro a música de Ryuichi Sakamoto.

Quis depois ver a versão de William Wylder, a tal com Laurence Olivier, amplamente premiada, um clássico, mas já era tarde de mais. Nenhum filme sobre Wuthering Heights poderia ser um filme sobre Wuthering Heights se não tivesse aquela música, ainda hoje me arrepio quando ouço aquelas primeiras notas ao piano, por breves momentos tenho outra vez talvez 14 anos e estou algures entre a charneca perto do monte e o recreio da escola secundária. Mais tarde, soube que havia uma versão com o Timothy Dalton, de 1970, e outra realizada por Buñuel em 1954, com o nome Abismos de Pasión. Ainda não vi nenhuma das duas, tenho um ódio de estimação pelo Timothy Dalton e infelizmente eu e a versão do Buñuel ainda não tivemos a felicidade de nos cruzar nesta vida. No entanto, sei de antemão que nenhuma delas tem uma banda sonora da autoria de Sakamoto e com o passar do tempo isso tornou-se um defeito.



Dificilmente algum compositor conseguirá voltar a captar tão bem toda a essência do livro, a paixão desenfreada, crua e cruel, o ambiente lúgubre, as sombras, a raiva, a fina linha que divide a paixão do ódio e também o fino raio de luz, o único raio de luz, que parece romper a escuridão, uma espécie de arco-íris em escala de cinzentos que nenhum deles consegue alcançar. As paisagens desoladas do norte de Inglaterra, a charneca, as rochas, as distâncias incalculáveis, a solidão.

A música composta por Sakamoto para Wuthering Heights é mais que um mero acompanhamento sonoro, ela é a própria essência do filme, é o turbilhão de emoções que atormenta as personagens, é tão poderosa como o fantasma de Cathy na janela, preenche o vazio e eleva-o a um estado que não pode ser meramente classificado de som, é imagem e palavra, é uma presença tão real e palpável como a advertência em voz off de Sinead O’Connor - take care not to smile at any part of it. Se versões cinematográficas anteriores, como a de William Wylder, eram quase estéreis na sua representação dos sentimentos de vingança, ciúme, obsessão e crueldade, criando erradamente a ideia de que esta é mais uma história lamechas de amor, a de Peter Kosminsky é nesse aspecto muito mais fiel ao livro. Um drama denso e pesado que só poderia passar-se numa região inóspita como aquela, onde tudo o que é humano, seja o amor ou o ódio, é vivido de forma intensa e por vezes fatal.

Tanto quanto sei nunca foi editada uma banda sonora de Wuthering Heights, Sakamoto editou mais tarde o tema principal do filme no álbum 1996, uma colectânea dos temas que compôs para o cinema. Descobri nesse disco outras músicas, outras bandas sonoras, como a de Merry Christmas Mr. Lawrence, filme que catapultou Sakamoto para a fama, não só pela música, que inclui a canção Forbidden Colors (mais tarde cantada por David Sylvian), mas também pelo beijo a David Bowie, na boca e em câmara lenta. Para além disso, as músicas compostas para os filmes de Bertolucci, como The Sheltering Sky ou Little Budha, o tema principal de Sapatos Altos de Almodovar ou a música de O Último Imperador são razões mais que suficientes para comprar este disco e ouvi-lo até à exaustão.

Um ano depois, Sakamoto editou Cinemage, mais uma compilação da música que compôs para o cinema ao longo dos anos, desta vez com novos arranjos, mas para mim 1996 continua a ser o disco a ouvir. Wuthering Heights*, e consequentemente 1996 na sua totalidade, é sem dúvida uma das minhas músicas e tenho a certeza que o seria mesmo que os primeiros parágrafos deste texto nunca tivessem existido na minha vida.


* Wuthering Heights é também o nome da música que fez de Kate Bush uma estrela. A ligação entre esta música e o livro levou-me na altura também até ela e a compreender e gostar de toda a estranheza e pureza que a rodeava na altura.

 

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Publicado em Abril de 2005