ERASERHEAD, BEM VINDOS AO MUNDO DE LYNCH
por Gabriela Ferreira


“Eraserhead – No Céu Tudo é Perfeito” é a porta principal para entrar no mundo do realizador americano que herdou as vanguardas cinematográficas europeias. Primeira longa-metragem de David Lynch, datada de 1977, apresenta-se como um clássico do cinema de autor.

Entre os admiradores e os curiosos de David Lynch podem definir-se dois grupos, os que procuram explicações ocultas para as suas obras e o que as entendem como exercícios surrealistas puros onde as verdades metafóricas devem permanecer inconscientes. De uma maneira ou de outra, criar uma sinopse para um filme de Lynch pode ser um acto ousado e resultar numa mentira. Norma comum é que por mais estranho que nos esteja a parecer um filme seu, há sempre algo mais estranho que nos aguarda, uma personagem, um diálogo, um simples efeito usado numa cena.

“Eraserhead – No Céu Tudo é Perfeito” é uma ode ao cinema surrealista. Conta a história de Henry Spencer, um homem incomodativo, tímido, lunático e pervertido, que habita um cinzento subúrbio industrial. Filmado a preto e branco, o filme centra-se nos ambientes onde Henry se move, o seu apartamento que partilha com uma mulher que vive no seu radiador e lhe canta “In Heaven All is Perfect”, (daí a tradução portuguesa do título do filme) ao estilo de uma canção de embalar, o apartamento do lado habitado por uma vizinha sinistra, as fábricas onde o fumo e o ruído se desenham como personagens. Henry namora com Mary X que dá à luz uma criatura repugnante (quando o filme já parecia estranho o suficiente, aparece esta coisa). Mary provém de uma família que é um autêntico festival grotesco e com a qual desejaríamos nunca ter algum tipo de contacto. Mesmo a banda sonora do filme, também composta por David Lynch, se estranha (e entranha) no corpo, ajudando a criar a sensação de que estamos a observar um caleidoscópio em branco e negro de sensações claustrofóbicas.

“Eraserhead” é uma fábula apocalíptica onde um simples de jantar de família se transforma num momento arrepiante, onde tudo nos dirige para um pesadelo sufocante, culminando numa apoteose final explicativa. Pelo menos em parte, porque num filme de David Lynch nunca se desembaraça o novelo totalmente, há sempre uma gaveta do inconsciente que permanece trancada.

Henry Spencer é interpretado por o actor fetiche de David Lynch, Jack Nance. À excepção de “O Homem Elefante”, entrou em todos os seus filmes até “Estrada Perdida” (o actor morreu em 1996). Em complemento a “Eraserhead – No Céu Tudo é Perfeito” recomenda-se o documentário sobre o actor “I Don´t Know Jack”, realizado por Chris Leavens.


(voltar ao arquivo)





Publicado em Abril de 2005