I'M
READY FOR MY MIRACLE NOW MR. DeMILLE
por Joana Linda
Enquanto
que a geração de 90 / 2000 vai por certo associar
ao Natal filmes como Harry Potter ou O Senhor
dos Anéis, para a geração de 80 / finais de
70, não há Natal sem Música no Coração, sem
E Tudo O Vento Levou, sem Natal dos Hospitais,
uns quantos musicais, e claro, sem os 10 Mandamentos
de Cecil B. DeMille.
Já
se passaram bastantes anos desde a última vez
que vi este filme mas ainda me lembro dos tempos
pré-televisão privada e pré-televisão por cabo
quando o que a RTP passava era a lei e a lei
na quadra natalícia era relembrar esse belo
momento ancestral em que Deus, fazendo soar
a sua voz possante no meio do monte, atira cá
para baixo duas grandes tábuas de pedra com
uma decoração inspirada na temática "pecar ou
não pecar, eis a questão." Se agora temos mais
canais que dedos das mãos e dos pés e mesmo
assim de cada vez que pegamos no telecomando
somos assombrados pelas sábias palavras do Boss
"57 channels and nothing on", na altura víamos
todos a mesma coisa e não nos queixávamos. Devo
confessar que tenho alguma saudade desses tempos,
há uma certa beleza na ideia de estarmos todos
nas nossas casinhas a assistir a uma mesma história
em vez de cada um estar perdido na sua individualidade.
Gostava também do fenómeno do dia seguinte,
quando na rua toda a gente falava do mesmo filme
ou da mesma cena da telenovela, era algo que
unia o povo, que nos dava o que conversar com
a velhinha que se sentava ao nosso lado no autocarro.
Devo
dizer que estes filmes natalícios foram os que
mais me marcaram na minha infância, não sei
se por serem vistos no Natal, se por serem vistos
em família ou se isto se deve mesmo à mera repetição
ano após ano, uma espécie de lavagem cerebral
que acabou por fazer efeito. Não sei se o filme
teria o mesmo impacto se o voltasse a ver hoje,
mas na altura deixava-me completamente fascinada.
Moisés era o meu Harry Potter, o meu Gandalf,
e devo dizer que ainda hoje, se comparar as
capacidades milagrareiras destes três, Moisés
continua no topo da lista, é que abrir o mar
em dois é uma coisa mesmo muito à frente. Aliás,
quase todo o meu fascínio por este filme residia
nessa cena em particular, na magia do technicolor,
das pessoas a caminhar no fundo do mar, das
águas como que em pausa, a espuma das ondas
lá em cima suspensa e o terror que era saber
que a qualquer momento tudo aquilo poderia desabar
de novo.
Realizado em 1954 por um dos grandes de Hollywood,
Cecil B. DeMille, The Ten Commandments quebrou
todas os recordes de bilheteira, mantendo-se
durante vários anos como um dos filmes mais
bem sucedidos da história de Hollywood, superado
apenas por E Tudo O Vento Levou. Esta não foi
no entanto a primeira vez que DeMille contou
esta história com enorme sucesso, quis o destino
que Os 10 Mandamentos fosse ao mesmo tempo o
seu primeiro e último filme. Em 1923, a sua
primeira versão de Os 10 Mandamentos, e também
o seu primeiro filme, foi um sucesso de bilheteira
estrondoso, custou uma fortuna aos estúdios,
ainda na era do cinema mudo, e diz-se que inspirou
numerosos jovens a seguir uma carreira de padre,
rabino ou pastor. Três décadas depois, DeMille
pega na mesma história e volta a maravilhar
Hollywood. Pelo meio ficava uma carreira dedicada
a levar as mais belas histórias bíblicas ao
ecrã. Diz-se que o realizador lia a bíblia todos
os dias e que apesar de ser conhecido como um
homem austero e de difícil relacionamento, o
seu interesse pelas histórias religiosas não
era gratuito. Era vulgar DeMille inventar cenas
de multidões nos seus filmes, especialmente
durante as épocas festivas, para que os actores
tivessem trabalho e pudessem receber um pouco
mais de dinheiro.
Este
filme imortalizou para sempre a figura de Charleton
Heston enquanto Moisés e a sua mensagem vai
além do puro entretenimento. A última frase,
retirada da Bíblia, resume não só este filme,
como todos os outros de DeMille. Se o realizador
esperava ainda fazer mais filmes depois deste
ou se adivinhava já que a sua saúde débil já
não o permitiria, DeMille chegou mesmo a ter
um ataque cardíaco durante estas filmagens devido
ao esforço físico, se a escolha desta frase
em particular foi pensada enquanto declaração
final de um filme ou de uma carreira, não sei.
Sei é a inscrição do famoso Liberty Bell e que
faço dela também a minha mensagem deste Natal:
"Proclaim
liberty throughout all the land, unto all the
inhabitants thereof"
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Publicado em Dezembro
de 2005