JAWS - O VERÃO EM TOM DE SANGUE
Gabriela Ferreira


Num número dedicado ao Verão, seria impossível esquecer um dos melhores vilões de sempre. Ou será mais correcto chamar-lhe um dos piores de sempre? Não é por acaso que O Tubarão é tão marcante. E tal não se deve apenas a um exímio trabalho de bailado robótico. É preciso entregar os louros a quem de direito, ou seja, Steven Spielberg.

Apenas com O Tubarão percebe-se porque Spielberg se mantém como um dos mestres do entretenimento. No mesmo filme, que serve na perfeição uma sessão de cinema em família, temos sangue, emoção, terror e, ainda que breves, momentos de puro melodrama. Tudo servido com picos de interesse que parecem estudados matematicamente. É impossível manter uma batida cardíaca normal ao ver este filme. Os momentos em que tudo parece acalmar, servem apenas para tornar as emoções seguintes ainda mais lancinantes.



Quem não se recordar das imagens dos banhistas, algo desconfiados, a entrar no mar de Amity? Do receio na cara dos mais velhos e da alegria das crianças com os seus barcos insufláveis? Do caos de corpos e salpicos quando é dado o alarme de tubarão na água? Um falso alarme – uma inconsciente mas divertida brincadeira de putos – que pouco depois se torna real.

O Tubarão centra-se então na saga de três homens numa caça ao animal. Uma luta desigual – o barco é pequeno, o tubarão é enorme – travada no lado humano por três espécimes cheios de falhas mas com vontade de vencer. Um trio que se une com um objectivo comum, mas com ideias de realização divergentes. Um trio, que fechado num barco em alto mar, não tem outra hipótese se não aliar-se nos seus medos, inseguranças e desejos de vingança. Uma aliança personificada na história de Quint sobre a desgraça a bordo do USS Indianapolis, após ter lançado a bomba de Hiroshima.



Um dos trunfos de Spielberg é essa mestria em personificar os nossos alvos de atenção. Uma barbatana é secundária quando primeiro temos uma imensidão de mar para temer e depois um, dois e três barris amarelos. Outro é o espaço que nos deixa à imaginação. Sem nunca o mostrar, Spielberg obriga-nos a imaginar o fundo do mar repleto de pedaços humanos, dedos, braços, pernas ou troncos. O que depois de ver um rosto petrificado pelo terror e pela dor não é difícil de desenhar nas nossas mentes.

Rever hoje O Tubarão, numa sala de cinema ou em casa, desde que numa televisão de grandes dimensões, é uma experiência arrepiante. Não há ponto no ecrã que Spielberg não tenha enchido de narrativa. Não há acção em segundo ou primeiro plano que não faça explodir a batida cardíaca, não há pormenor de mar que não arrepie porque a qualquer momento poderá emergir o temível.




Aos seus leitores, a Clarice deseja uma feliz época balnear!


Steven Spielbeg a bordo do seu tubarão



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Publicado em Julho de 2005