OS DOIS LADOS DO ESPELHO
Joana Linda

(Aviso ao leitor: É natural que não leia este texto até ao fim mas se por acaso o fizer, deixo-lhe desde já o meu agradecimento e o meu apreço. Adiante ...)


At some time or another, I said that Persona saved my life - that is not exaggeration. If I had not found the strength to make that film, I would probably have been all washed up.

Ingmar Bergman


O silêncio é uma entidade estranha. Elizabeth Vogler (Liv Ullman), actriz, emudece por vontade própria e sem qualquer aviso prévio. Quando aconteceu, estava em palco, representava Elektra. É levada para um hospital onde lhe é declarada sanidade total como se as palavras tivessem sido até aqui a sua doença e este silêncio súbito, este fechar de portas ao mundo, a sua cura. É designada uma enfermeira para a acompanhar, o seu nome é Alma (Bibi Andersson), está noiva, tem 25 anos e a sua mãe também fora enfermeira antes de se casar. A médica que segue a actriz compreende-a e admira a sua força de vontade, a negação da palavra, do mundo exterior, essa tentativa de abolir todas as máscaras, a procura do verdadeiro ser, da ausência do sofrimento. Recomenda-lhe que passe um tempo na sua casa de Verão, a enfermeira acompanhá-la-á.

Os críticos tentam decifrá-lo, tentam ligar os pontos que julgam formar uma recta, procuram significados singulares em tudo, nada encontram, repudiam-no, apelidam-no de devaneio do realizador, distanciam-se. Faz parte do batalhão que primeiro desconstruiu a narrativa, que a atirou ao chão para depois a reconstruir na ausência de todos os pedaços. O mistério, a inexplicabilidade, a falta de porques e de porquês é intencional. Deve por isso ser respeitada. O significado é plural, subjectivo, flutua em várias ramificações e cada um deve escolher o que mais lhe convém, o que lhe é mais próximo. Cada um deve encontrar o seu lugar no vazio.

Falarei do meu lugar, do assento que me foi reservado naquele palco, naquele hospital, naquela casa perto do mar, de como tudo se me afigura claro e sem qualquer sombra de mistério. É que Persona também salvou a minha vida.

There were always in me, two women at least, one woman desperate and bewildered, who felt she was drowning and another who would leap into a scene, as upon a stage, conceal her true emotions because they were weaknesses, helplessness, despair, and present to the world only a smile, an eagerness, curiosity, enthusiasm, interest.

Anaïs Nin


Este afogamento emocional é exclusividade quase total das mulheres, poucos homens serão capazes de atingir o fundo do lago com tanta rapidez, como um tiro certeiro ou uma estranha propensão para a tragédia. Existem em Elizabeth Vogler duas mulheres, como existem neste filme também duas mulheres, uma dualidade que Anaïs descreve melhor que ninguém. A sua coexistência é tudo menos pacífica e a sobrevivência depende de um frágil equilíbrio entre ambas, da aceitação de que uma delas terá de ceder, uma existência alternada, ora assim ora assado, que tantas vezes confunde os ilustres membros do sexo oposto.

A luta interior, uma luta milenar entre a luz e as sombras, materializa-se, toma forma, adensa-se, invade a casa e todos os que a habitam quando Elizabeth rompe esse equilíbrio e se vota ao silêncio, que aqui se apresenta como a única salvação possível. O seu sofrimento é em parte causado por um excesso de empatia por todos aqueles que sofrem, Elizabeth reage violentamente às imagens do monge budista a auto-emular-se, como se aquele corpo fosse o seu. Essa transferência do sofrimento dos outros para si esgota-a, ela é um receptáculo de sensações e emoções, vive a sua vida e a de todos os outros até ao dia em que atinge o seu limite e deixa de conseguir funcionar dentro deste mundo para ela órfão de humanidade.

Retira-se para um lugar isolado e selado onde a realidade fica lá fora, um santuário emocional onde tudo é paz, retiro e ausência. Mas como lhe diz a médica, num dos discursos mais verdadeiros e geniais do cinema, estou certa disso: But reality is diabolical. Your hiding place isn't watertight. Life trickles in from the outside, and you're forced to react. É esse o segredo, aceitar a realidade mas em pequenas doses, deixar que ela entre apenas por um frincha e depois um pouco mais, dia após dia, até ser seguro voltar, até ser seguro abrir as portas e deitar abaixo as janelas. Elizabeth Vogler voltará ao mundo das palavras, a médica está certa disso, de que este silêncio reside não na fraqueza mas sim na força, na imensa força necessária para abdicar da vida como a conhecemos, de nós próprios, na esperança de que tudo volte a florescer mas com a convicção de que se o terreno estiver definitivamente seco, não faz mal, o silêncio será aceite como condição permanente.

Alma está fascinada com a actriz, uma mulher bonita, famosa, inteligente, bem sucedida, o seu temor inicial de ser demasiado inexperiente para lidar com alguém que revela uma força de vontade tão forte, transforma-se pouco a pouco num desejo de ser como ela, na impressão cada vez mais forte de que não são assim tão diferentes. A jovem enfermeira é, quando a conhecemos, o completo oposto de Elizabeth, é viva, alegre, cheia de esperanças e de optimismo. Fala incessantemente para distrair a actriz e ocupar o tempo, primeiro sobre banalidades e a pouco e pouco sobre a sua vida. Os seus segredos mais íntimos vêm à tona naquilo que ela acredita ser a indicação de uma crescente intimidade e amizade entre as duas. Mas as coisas não são bem assim. Quando Alma lê a carta que Elizabeth escreveu ao marido e descobre que a actriz partilha com ele, num tom jocoso, as confidências que ela lhe faz, a enfermeira torna-se violenta e vingativa, entre as duas ergue-se um muro e os traços da personalidade e do rosto de ambas esbatem-se até que já não sabemos quem é quem, nem de quem são aqueles sentimentos ou aquelas palavras.

A linha entre a realidade e a ficção não é clara. Se o que vemos está realmente a acontecer ou se é fruto da imaginação fértil de Alma, como quando ela conversa com o marido de Elizabeth, não nos é explicado. No entanto, algumas pistas indicam-nos que algumas cenas se tratam de sonhos, a visita de Elizabeth ao seu quarto, o encontro com o marido, as palavras sussurradas. Á medida que a actriz melhora, a enfermeira piora, a confusão mental de uma é agora a da outra, há uma transferência de sentimentos. A moldura inicial do filme, um conjunto de imagens rápidas que se seguem umas após as outras e que Bergman disse que deveriam ser vistas como “um poema em imagens”, volta a aparecer a meio do filme na sequência de um grande plano de Alma em que o seu rosto se parte em mil pedaços.

Face à crescente rejeição de Elizabeth, a tristeza procura uma nova casa, mas a que encontra é mais fraca, mais facilmente moldável. As palavras não pronunciadas são as mais perigosas, acumulam-se, apoderam-se da alma, de Alma, tornam-se físicas, palpáveis. Este assombramento das palavras que resulta depois em possessão é bastante claro quando, já quase no final do filme, Alma começa a balbuciar palavras desconexas, como se elas saíssem da sua boca contra a sua vontade: “não, não, não … a nós, não, a mim, eu … Muitas palavras e tamanha náusea … Dor incompreensível. O vómito.” Alma é um carneiro levado para o sacrifício, imagem que aparece logo no início do filme, é demasiado fraca para conseguir lidar com as forças que atormentam e rodeiam Elizabeth.

I'm very aware that the most generous thing I can do to a stranger is putting a song on a CD. I have a lot of people that I adore whose music, b ooks, films and so on have saved my life on several occasions. But I am also very aware that their generosity that I enjoyed happened because they got some space to work in peace. Their work then managed to get from point a to b - well, to me, somehow- and I then, being generous with my time enough, by sitting down and either listening, watching or reading with devotion, created a shared experience. That shared experience would not happen if we would then meet that person in the street. That's something else and it's important that those two things are not confused.

Björk


Quando Alma, depois de ler a carta de Elizabeth ao marido, suplica à actriz que fale com ela, que lhe diga uma palavra apenas, que a ajude dessa forma, dando-lhe uma prova de amizade, transforma-se. Aquilo que até agora era adulação quase mórbida torna-se ódio, desprezo. Alma pede mais do que Elizabeth consegue dar. Ao contrário da médica do hospital, ela não compreende as razões do silêncio de Elizabeth, diz-lhe que sempre pensou que os artistas fossem pessoas sensíveis e que o seu trabalho era muito importante principalmente para as pessoas em necessidade e que por isso não compreende agora a sua recusa em oferecer-lhe a sua amizade daquela forma. Alma não distingue entre a arte e o artista, não percebe que esse distanciamento é indispensável à sobrevivência da actriz, que a aproximação ao mundo real, a uma vivência real, pode ser fatal e que a sua forma de ajuda é através da sua arte e não da sua pessoa.

A convivência das duas revela a Alma o lado humano da actriz, ela observa-a atentamente enquanto dorme e essa revelação de humanidade é para Alma, até certo ponto, uma forma de a assegurar de que a sua metamorfose de enfermeira para grande actriz não é assim tão difícil: “Quando está a dormir a sua cara fica mole. A sua boca inchada e horrível. Tem uma ruga desagradável a testa. Cheira a sono e lágrimas. Consigo ver a pulsação na sua garganta. Tem uma cicatriz aí que costuma esconder com maquilhagem.”

Depois do confronto, depois de Alma descobrir o grande segredo de Elizabeth, o seu fracasso enquanto mãe, monólogo que é repetido duas vezes, primeiro vendo-se apenas o rosto de Elizabeth e depois apenas o de Alma, o rosto da enfermeira vai-se começando a parecer estranhamente cada vez mais com o da actriz, palavra a palavra, até à união final, até se tornarem um só. Alma assume a identidade de Elizabeth e Elizabeth suga a vida de Alma. Elizabeth, durante a sua estadia na casa de Verão, alimenta-se da atenção de Alma, fortalece-se através daquela adoração. Ela estuda a enfermeira com o mesmo distanciamento com que estuda uma personagem, deixa-a falar, deixa-a perder-se nas palavras como se assistisse a uma peça. As duas imagens em que Elizabeth suga o sangue de Alma, primeiro no pescoço e depois no pulso, simbolizam essa característica vampírica inerente a todos os artistas e consequentemente à arte em geral. Talvez os índios tivessem alguma razão ao não se deixar fotografar ou filmar porque acreditavam que a máquina lhes sugava a vida, a imagem. Elizabeth inveja a simplicidade de Alma, a falta de complexidade do seu cérebro é algo que a actriz anseia porque é sinónimo de paz, de felicidade, de vivacidade. E nós, enquanto espectadores, partilhamos este vampirismo, entramos pelos grandes planos de Bergman, nos planos fixos dos rostos das actrizes, estudamo-los até passarem a ser apenas carne e osso e depois vamos mais longe, vemos através deles, vemos o que está para além da carne num preto e branco perfeito e imaculado criado por Sven Nykvist, o director de fotografia.

Ao abordar o tema do duplo e da máscara, Persona, que em latim quer dizer a máscara que os actores usam no teatro, teria inevitavelmente de ser também sobre o cinema, sobre o teatro, sobre a representação, a personagem. Ao emoldurar o filme com aquilo a que chamou “um poema em imagens”, Bergman está a lembrar-nos de que estamos na verdade a ver um filme e que todo o seu significado está ali encerrado. Há um sentimento de conclusão que acompanha o final do filme como se fosse algo com que não nos deveríamos preocupar demasiado. Coisas que deixam de acontecer com a mesma rapidez com que acontecem, que são mesmo assim. As duas mulheres separam-se, uma volta à vida real, ao cinema. A outra, Alma, vemo-la a apanhar um autocarro, não adivinhamos o seu destino, não sabemos se sobreviverá aquela experiência. No guião original o filme não acabava ali, víamos Elizabeth a voltar ao teatro como a doutora previra e mais uma vez, como o coro de uma tragédia grega, a médica toma a palavra para nos esmagar por completo: “It is difficult to analyze her reason, but i would think it was because of a strong developed infantilism. And all the rest with it: fantasy, sensibility, maybe even intelligence. I think it is necessary to be a child, deep inside, to have the strength to be artists, in this time".


(voltar ao arquivo)





Publicado em Junho de 2005