PAS
LA VIE EN BLUE
por Diana Martins Moreira
"Você
está diferente. Dantes não era
tão desagradável."
Já se sabe que os jornalistas têm
uma atracção mórbida pelo
factual.
Não
sei como era o dantes dela mas o agora é
impossível.
Em
Azul, o tempo tem que ser obrigatoriamente linear.
É um linear feito de instantes. Instantes
em filinha lançados para a tela em 1994
por Krzysztof Kieslowski.
Neste
instante mesmo, de agora, ela é um lindíssimo
invólucro que transporta um enorme nada.
Azul
é um daqueles filmes que nos mastiga.
Submerge-nos no desespero triste e angustiante
de Julie (Binoche) e deixa-nos a marinar nas
pequenas coisas que magoam.
Enquanto
nos prende debaixo dessa água de pântano,
vai-nos anestesiando pontualmente com trechos
do Concerto para a Unificação
da Europa, de Zbigniew Preisner, na esperança
que este novo tom de azul seja o acordar e a
redenção.
Numa
visão pop-bimbo, é um filme que
nos sussurra um "a vida é uma merda
mas prontos.". As coisas que temos, que
fazemos, as pessoas que temos, que fazemos,
tudo isso não é mais que um conjunto
de armadilhas.
O
azul da bandeira está por liberdade.
É
o que ela quer também, mas do falso mendigo-flautista
à mãe senil, aparece sempre alguém
que a lembra que não pode renunciar a
tudo, que é preciso guardar sempre alguma
coisa. E aquela música é essa
alguma coisa, é o que se ouve quando
o resto pára, quando
se sai da água, quando o lustre de pedras
brinca com o Sol.
Aquela
música tem que mudar de significado ou
acaba por fazer enlouquecer.
Neste
momento estou estupidamente doente, não
sei se não foi por rever o filme. A esperança
daquele final não me faz baixar a febre,
continua tudo num tom demasiado amargo mesmo
que agora seja mais justo e mais completo. No
entanto, saber que Binoche, entre o papel de
Laura Dern em Jurassic Park e o de Julie em
Bleu, escolheu o Bleu apesar de querer muito
trabalhar com Spielberg, ainda me serve de aspirina.
Não quero sequer saber como seria o mundo
se esse instante de escolha não desse
azul...
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Publicado em Abril de
2005