O
COWBOY E O ANJO
por Joana Linda
Não
acreditem em tudo o que as fichas técnicas
vos dizem, nem todas as comédias são
felizes, nem todos os dramas são isentos
de esperança, nem todos os filmes sobre
a felicidade correspondem à realidade.
Não foi assim quando o vi pela primeira
vez, mas aqui e agora, sob a luz do candeeiro
e o calor que vem do aquecedor, Bus Stop é
o filme mais triste que alguma vez vi e o sorriso
de Marilyn, um dos sorrisos mais famosos do
mundo, fica-me preso na garganta, como um nó,
como uma vontade inexplicável de chorar.
When
you look at Marilyn on the screen, you don't
want anything bad to happen to her. You really
care that she should be all right…happy.
- Natalie Wood
1956,
era, aparentemente, um ano como todos o outros.
Não marcava o início nem o fim
de nenhuma guerra, não marcava o nascimento
nem a morte de nenhuma criança, pelo
menos não de Marilyn, isso aconteceria
mais tarde - dois abortos e uma solidão
que crescia alimentando-se de si própria,
uma solidão esfomeada que parecia não
ter cura, uma demência, uma vontade de
ser amada acima de qualquer outra coisa, uma
propensão para a tristeza, para a adoração,
para a tragédia. E ao mesmo tempo, 1956
parecia ser o ano de todas as promessas: um
novo amor (Arthur Miller), um novo projecto
(a sua própria produtora), um novo filme
(Bus Stop), uma nova cidade (Nova Iorque). Parecia
algo saído de um conto de fadas, o casamento
entre o escritor de óculos, feio e magro,
e a estrela de cinema, a rapariga das capas
das revistas, uma beleza demasiado pura e etérea,
quase infantil, para ser controlada, para pertencer
a alguém, a um só. A Bela e o
monstro, o escritor e a sua musa inspiradora,
o intelecto e a beleza, a mulher dos sonhos
de todos os homens do planeta, o intelectual
de esquerda e o símbolo sexual, o sapo
e a princesa.
Parecia aos amigos de Marilyn que ela tinha
sido salva, resgatada enfim pelo príncipe
encantado, pelo amor. No início das gravações
de Bus Stop os dois estavam apaixonadíssimos.
O casamento começaria a desmoronar alguns
anos depois durante as filmagens de um filme
mítico, The Misfits, mas deixaremos esse
para outra oportunidade, é de Bus Stop
que falaremos aqui.
I
already decided, I’m gonna get me an angel.
Se
é verdade que os mistérios da
vida residem nas coisas simples, então
Bus Stop está, apesar de parecer que
não, carregado deles. De uma simplicidade
quase naif, acompanhamos uma história
sem grandes complexidades, uma comédia
romântica com a mulher mais bonita do
mundo, Marilyn Monroe e um novo actor, o primeiro
filme da mais nova esperança de Hollywood,
Don Murray, uma promessa de galã que
nunca se chegaria a cumprir. Bo (Don Murray),
é um campónio de 21 anos que,
na companhia de um amigo mais velho que parece
tomar o lugar do seu pai, Virgil (Arthur O’Connell),
apanha um autocarro para ir à cidade
pela primeira vez com o objectivo de entrar
num rodeio e ganhar todas as provas. Tendo vivido
toda a vida num rancho no meio do nada, as suas
boas maneiras deixam muito a desejar e quando
Virgil durante a viagem aborda o assunto “mulheres”,
Bo, apesar da sua total ausência de experiência
nesse campo, afirma que apanhar uma mulher não
é muito diferente de laçar um
vitelo. Ficamos assim a saber que as suas técnicas
de sedução não são
muito sofisticadas, ao contrário, no
entanto, dos anseios do seu coração
de jovem mancebo. Bo, um verdadeiro bronco,
sem maneiras, sem uma pinga de romantismo, verdadeiramente
irritante, machista, procura um anjo e consegue
sintetizar em poucas palavras aquilo que muita
gente procura uma vida inteira: “When you kiss
somebody for serious it’s kind of scarry, ain’t
it?“. É essa candura, essa inocência
que acabará por tornar a sua personagem
suportável, o seu amor verdadeiro, e
o over-acting de Don Murray uma razão
para rir e não para cortar os pulsos.
O que ele não sabe mas vai aprender no
decorrer do filme, é que um anjo não
é isento de atitude, defeitos ou pecado,
nem é assim tão fácil de
conquistar.
That’s
her Virge, that’s my angel. Look at her gleaming
there so pale and white.
Cherie
é uma cantora, perdão, uma chanteuse,
de cabaré de 4ª categoria. Uma pobre
rapariga do campo que sonha ser estrela de cinema,
ir para Hollywood, ser tratada com respeito,
uma rapariga que já vai dar umas voltas
com os rapazes desde os 12 anos, que sabe tudo
o que há a saber sobre eles mas não
sabe o que é o amor, sabe apenas que
o homem que escolher tem de se sentir um verdadeiro
respeito e admiração por ela independentemente
de a amar ou não.
Well,
what I mean is, I like you the way you are …
so what do I care how you got that way?
Cuidadosamente
planeado ou apenas uma casualidade feliz, Bus
Stop tem a inocência de uma criança
e a profundidade de um poema. Quase um road
movie, o próprio nome do filme, Bus Stop,
parece ser já uma pista, uma passagem
secreta para um subtexto que se calhar nunca
lá esteve, que se calhar eu misturo agora
com o próprio subtexto de Marilyn, com
a sua história. A paragem de autocarro,
a espera por algo que não vem, a estrada,
a viagem que se apresenta como um novo começo,
o reduzir da distância entre nós
e os nossos sonhos. Bus Stop é como um
peluche, um pedaço de veludo, renda ou
tecido felpudo, algo infantil, frágil,
precioso, brilhante, transparente. Tão
puro e branco como a pele de Marilyn debaixo
das luzes, como deve ser a pele de um anjo,
um anjo com o rosto cheio de pó-de-arroz,
a esconder o cansaço. Marilyn tem aqui
aquela que é considerada a sua melhor
prestação de sempre, o seu melhor
trabalho enquanto actriz, eu acho que Marilyn
nunca foi tão ela própria, nunca
uma história esteve tão próxima
da sua. Não é o seu talento que
eu ponho em causa, concordo com Arthur Miller
quando disse que Marilyn era uma artista como
só raramente se encontra, mas para mim
o seu incrível talento estava em ser
Marilyn, em ter uma luz e uma energia que saíam
dela sem que precisasse de se esforçar,
era como se tudo o que tocasse se iluminasse,
como um toque de midas mas em ternura, em fragilidade.
É o ser humano que admiramos quando olhamos
para o ecrã, não a personagem,
não a actriz. Não será
isso o mais importante, a força de um
coração e de uma personalidade,
não de um talento? Por isso, dizer que
Marilyn nunca foi tão Marilyn como aqui,
é para mim o maior elogio de todos.
Our
ranch is gonna be the nicest place in the world
‘cause we’re gonna have an angel on it.
Foi
também em 1956 que Norma Jean, apesar
de já o usar desde 1946, finalmente registou
o nome de Marilyn Monroe. Mas Bus Stop é
para mim um filme sobre Norma Jean e não
sobre Marilyn, sobre a rapariga que encontrou
aquilo que ela mais queria na vida, a rapariga
que foi salva, que foi feliz. E se Norma Jean
nunca tivesse ido para Hollywood? E se numa
das paragens de autocarro que a levaram até
lá tivesse encontrado um homem que tivesse
feito dela o seu anjo? Teria Norma Jean sido
feliz? Teria Marilyn Monroe sido feliz? Não
sei, mas aqui, hoje, sob a luz deste candeeiro
e o calor que vem do aquecedor, escolho pensar
que sim, escolho fazer do mundo um lugar menos
luminoso, do cinema uma arte mais pobre, escolho
pensar em Marilyn como Cherie, num rancho, numa
montanha, com a sua pele branca a confundir-se
com a neve. Escolho pensar que este filme é
o final feliz que nunca teve, a vida paralela
que nunca viveu, que Cherie encontrou aquilo
que mais queria mesmo que tenha sido num lugar
ou num coração tão estranho
quanto o de Bo.
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Publicado em Novembro
de 2005