FRANKENSTEIN (1931)
por Gabriela Ferreira



Conhecida como Frankenstein, a criatura feita de pedaços de cadáveres é na verdade um sem nome. Pelo menos na obra de Mary Shelley. Frankenstein é o apelido do cientista que o cria, Dr. Victor Frankenstein. Mas em 1931 tudo isto mudou.

Frankenstein – o livro – foi publicado em Inglaterra, em 1918, e alguns historiadores defendem-no como sendo a primeira obra literária de ficção científica. Em 1931, os Universal Studios transformaram-no numa das mais importantes personagens do cinema. James Whale, o realizador, ex-cartonista e homossexual assumido (não sei se isto é importante ou não, mas nunca li biografia dele que omitisse o facto), Boris Karloff, o actor inglês emigrado nos EUA, conhecido pelos papeis de vilão no cinema mudo e Jack Pierce, um dos mais geniais artistas de maquilhagem da época, criaram aquele que ficaria conhecido para sempre como Frankenstein. O que era até então apelidado de monstro, criatura ou aberração, ganhou, desde o dia 4 de Novembro de 1931 - data da primeira exibição do filme, o apelido do seu criador.

Na verdade, o que hoje reconhecemos como sendo esta personagem deve-se muito mais aos filmes que protagonizou do que à obra literária em que teve origem. Jack Pierce, responsável pela criação do monstro, estudou anatomia, cirurgia, medicina e criminologia para chegar ao desenho perfeito. Boris Karloff demorava cerca de quatro horas a encarnar Frankenstein e outras duas para o tirar do corpo. Para a posteridade ficou a sua cabeça quadrada e achatada, as roupas um tamanho abaixo e os eléctrodos no pescoço. Sim, afinal não são parafusos, são eléctrodos! Para além disso, todos sabemos que Frankenstein ganha vida por descarga eléctrica. Pois bem, no livro nunca é referido o método usado.

Frankenstein surge numa continuidade de terror clássico que a Universal vinha seguindo, sendo seus antecessores O Corcunda de Notre Dame, O Fantasma da Ópera e claro, o Drácula de Bela Lugosi. Aliás, Lugosi foi a primeira escolha para interpretar a criatura mas recusou. Henry Frankenstein (Colin Clive) – no livro a personagem tem o nome Victor – é um cientista apaixonado pela ideia de criar vida, um objectivo a que se propõe com a ajuda do seu assistente Fritz (Dwight Frye) – e não Igor, como no livro. Juntos recolhem pedaços de cadáveres em cemitérios que reunirão num corpo ao qual darão vida numa noite de trovoada, numa das mais memoráveis cenas da história do cinema. O pormenor de uma mão que articula um movimento e o horror e a satisfação da frase It’s Alive!!! Mas o plano corre mal – tudo por causa de uma troca de cérebros – e a criatura resultante da experiência é feia, burra, bruta e não consegue articular uma única palavra.

O filme foge em muito ao romance escrito por Mary Shelley. Enquanto no livro, a criatura é humanizada, distingue o bem do mal, à sua maneira, mas distingue, e é capaz de sentir, o Frankenstein cinematográfico de 1931 é desumanizado por completo. No livro há uma passagem em que a criatura salva uma criança, o que contrasta com o assassinato de uma no filme. Mas esta é uma cena que tem tanto de cómico como de terrífico. Frankenstein encontra uma menina a atirar flores a um lago e junta-se a ela. Quando as flores acabam, a criatura fica confusa e procura algo para atirar ao rio. Pega na criança, pensando que ela iria flutuar como as flores, e vê-a afogar-se, com uma expressão de incredulidade no rosto. Na continuação do filme assistimos por um lado à caça ao monstro, visto como um ser repleto de raiva, violento e sedento de mortes e, por outro lado, à propria expiação do pecado que o cientista cometeu ao criá-lo.
A cena da criança gerou uma enorme polémica e foi censura durante largos anos. A única acção em que vemos algum tipo de sentimento que não a raiva em Frankenstein foi assim apagada do filme e deu-lhe contornos impensáveis pelo realizador e pelo argumentista. Ao cortarem a cena no momento em que a criatura se aproxima da menina, o público imediatamente pensou que essa era uma sugestão de que Frankenstein teria molestado a criança antes de a matar. Outra celeuma foi levantada pela fala de Henry “Now I know what it’s like to be God”. Tudo porque, graças a Deus, a América é um país católico e conservador!

James Whale merece lugar cativo nos anais do cinema (não só mas também) devido a este filme. A realização de Frankenstein é de tal modo brilhante que nos coloca ao nível do cão de Pavlov. Qualquer noite de trovoada nos lembrará eternamente uma experiência científica, qualquer torre ficará para sempre associada a maquinetas e segredos obscuros, qualquer escada em caracol será sempre subida por um assistente mirrado. Também Boris Karloff assinou neste filme a admiração eterna de qualquer cinéfilo. A sua presença enche o ecrã de uma forma raramente vista. E bem se pode dizer que, como um bom vinho, com o passar dos anos Frankenstein fica cada vez melhor. O ambiente de terror esteticamente irrepreensível coabita nesta obra com uma aura de clássico que nos deixa, à distância de 74 anos, uma nostalgia pelos monstros do preto e branco.

Mais Frankenstein no nosso especial de Halloween

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Publicado em Outubro de 2005