STALKER (1979)
por Raul Costa



(Alguns dizem que nos anos 50 ocorreu na URSS um desastre nuclear semelhante ao de Chernobyl, mas escondido do resto da humanidade por um perímetro de arame farpado e metralhadoras, onde ninguém podia entrar ou sair. Vinte anos depois, a zona tinha-se tornado ininteligível.)

Dois homens (um escritor e um cientista) insistem numa árdua e perigosa viagem através da Zona, local pós-apocalíptico violentamente restrito, com o objectivo de alcançarem o Quarto (que lhes mudaria as vidas). Para lá chegar, requisitam os ilegais serviços de um Stalker.



Para o Stalker, a Zona é tudo. Tem vida própria, interage com os viajantes, podendo tanto indicar a redenção como a morte – certa, se não forem criteriosos no caminho a seguir, se não aceitarem as próprias fraquezas.

Mas progressivamente o Stalker torna-se no único dos três que acredita na mística existência da Zona e as verdadeiras motivações das outras personagens são-nos, por fim, reveladas: o Stalker está só, com a sua fé e angústia, e a Zona é a sua viagem, não a do escritor ou a do cientista - os intelectuais incapazes de tal despojamento espiritual.




A avassaladora técnica de Tarkovsky vai-nos oferecendo longos poéticos planos que percorrem os cenários como quem procura, em serenidade, a resposta, e a beleza da forma deste filme torna-se, para mim, inigualável: qualquer frame que seja tem uma intenção específica, e frequentemente mais de uma; excedendo-se da sua função de elo, torna-se arte pura. Pelos escombros do desastre nuclear deambulamos, em simultâneo com os olhares errantes das personagens, dispersos e apreensivos perante a paisagem de metal e erva selvagem.

(Compreendemos que a verdade se encontra entrando no desastre e não saindo dele.)

E um estranho e ambíguo ambiente absorve-nos a existência, os desejos, faz-nos mergulhar no misticismo, perdidos, sem sabermos porquê nem como, sem compreendermos as paisagens daquela desconjuntada União Soviética, as ruínas industriais sucumbidas pela natureza, estruturas colapsadas, muralhas de sons de laser e de carruagens de aço, o fumo e a humidade férrica e a textura das paredes
o incompreensível torna-se então afago
o pensamento flui das personagens para dentro de nós, para os lugares desconhecidos, escondidos, os sótãos de nós agora ternamente iluminados.

(Um estranho sentimento reverbera: como um déjà vu, somos nós que recordamos, e não apenas o Stalker; ansiamos pela Zona; desejamos encontrarmo-nos.)

É esse o contributo de Tarkovsky: formula as perguntas, hesita, e deixa que o espectador procure as suas próprias respostas.

Stalker demorara um ano a ser filmado, no entanto, na altura de o editar, o laboratório teve de informar Tarkovsky que aquela película, por ser um filme experimental da Kodak, não poderia ser revelada e destruíram-na por completo. Um ano de trabalho desintegrou-se assim, tão simplesmente. É quase inconcebível tentar imaginar o que terá o sereno realizador russo sentido. O desespero absorveu-o por largos meses e a mera ideia de reconstruir Stalker afigurava-se-lhe absurda. Mas aquela provavelmente seria uma viagem incontornável e, com muita dor e um orçamento drasticamente reduzido, recomeçou-o do princípio. Sem réplicas de cenário, sem shots repetidos; uma dolorosa evolução do primeiro filme.
Como Stalker, Tarkovsky precisou de entrar no desastre para se encontrar. Talvez tenha sido isso, no final de contas, que contribuíu para que esta obra-prima se tornasse na maior expressão artística a que alguma vez assisti.


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Publicado em Setembro de 2005