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SILENT RUNNING
por André Santos

Referência apanhada num episódio de Six Feet Under (terceira temporada, se não estou em erro), quando o estagiário nerd apaixonado pela Ruth se põe a ver filmes com ela, Silent Running é um 2001 do hippie da paz e do amor (e não da vertente hippie-tripante de Kubrick). Verdadeira surpresa, pois fiquei com a ideia errada no episódio de Six Feet Under (maus exercícios de memória, portanto) e pensei que se tratasse de uma invasão à terra elaborada por robôs quadrados e anões.

Mas não tem nada a ver com isso. Realizado por Douglas Trumbull em 1972, passa-se num futuro distante, dentro de uma nave proveniente de uma terra sem vegetação e com uma insatisfatória comida artificial. Pelo menos é assim que pensa a personagem principal, Freeman Lowell (Bruce Dern), que passa os seus dias a criar nos pods da nave, belíssimas florestas, enquanto é gozado pelos seus três colegas. No fundo, Freeman é o último hippie. E, tal como eles, passa-se quando recebe ordens para a destruição dos pods e resolve matar todos os seus companheiros. A partir deste momento, o filme começa.

É sobre a solidão do espaço e como o personagem a completamente fazendo sobreviver uma das várias florestas que criou, com a ajuda de três drones (os tais robôs quadrados e anões), aos quais vai ensinar tudo o que precisam de fazer para manter a floresta viva para a eternidade. Enquanto 2001 é um passo para a alienação, em Silent Running percorre-se o caminho inverso. As máquinas são "amigas" e não hostis, assumindo um papel muito semelhante ao celebrado Robby, The Robot, de Forbidden Planet.

O que o torna verdadeiramente espantoso e, vá lá, bonito é a agilidade que nos faz ganhar compaixão por um gajo que mata os três colegas, só porque achamos que ele tem razão, apesar de estarmos muito descontextualizados de tudo. É uma falha que vem por bem. Os três, que são substituídos por três máquinas frias que depressa se tornam calorosas não por sentimentos, mas pela seu automático desejo de aprendizagem ao sabor da ordem. A instrução forçada do último humano que preza os seres vivos - e o gosto do que nasce pela terra.

No fundo, Silent Running é ficção-científica por excesso de uma cultura que, para todos os efeitos, se tornou dominante no imaginário colectivo dos 60/70's. É K Dick elaborado numa cabeça limpinha. E isso, por vezes, até é bom.




Publicado em Agosto de 2007