O IMPÉRIO M E M: MANOEL E MARGARIDA - ONTEM COMO HOJE

por Ângela Guilherme



E se Manoel de Oliveira adaptasse as obras de Margarida Rebelo Pinto ao cinema?

Seria possível? E se fosse, qual seria o resultado? Um enredo que girasse em torno da vida agitada de uma mulher snobe de 30 anos a combinar com uma realização onde os planos estáticos são a palavra de ordem? Seria aplaudida pela crítica? Certamente. Manoel de Oliveira poderia até concluir a sua carreira cinematográfica com chave de ouro. Vamos dar asas à imaginação…

A personagem principal chamar-se-ia Caetana, Mariana, Benedita ou algo do género. Qualquer nome que não desse para ter um diminutivo snobe…. Esta mulher é snobe, vive num mundo snobe, tem amigas e vícios snobes, mas demarca-se das outras por ser mais inteligente, mais destemida e por não “ligar nada de nada a essas idiotices das regras da sociedade”, poderia ela perfeitamente dizer.

Teria uma profissão independente que sustentaria os seus vícios, o seu apartamento fashion no centro de Lisboa, as suas compras que seriam compensações de desgostos amorosos, as idas aos restaurantes e às discos da moda. Talvez assistente de realização, fotógrafa, crítica de literatura ou de cinema…

A acção poderia passar-se em Lisboa no Lux, de preferência ao final da tarde. Seria o castelo de Caetana, o “D. Sebastião” feminino.

Seria a Capitã das Mulheres, que, nascida e vivida em Cacilhas, quando atinge a maioridade, decide apanhar o barco para o outro lado do rio, a tão desejada margem. Chega ao Cais do Sodré numa manhã de nevoeiro. Na sua cabeça, apenas está um lema: “Vingar e ser feliz. Os outros que se danem!” Ou até outro: “ Aquilo que não te mata, torna-te mais forte!” ou “Quanto mais se dá, mais se tem” ou “Cumprir Portugal!”. É uma mulher de máximas e de lemas, a Caetana.

Manoel de Oliveira mostraria esta audácia da forma poética a que nos tem habituado. Colocaria Caetana com os olhos molhados a ver o horizonte a vociferar versos sentidos, através dos quais partilharia os seus sonhos e as suas vontades, fazendo o público antecipar qual seria o seu destino.

(CAETANA)
Viver, morrer…
Viver ou morrer, e o que mais importa?
Que importa a vida, sem um empreendimento que a torne maior,
pelo qual se viva, pelo qual se morra...?
Tentar a minha sorte na outra margem do rio Tejo irei…
Esse é o meu fado.
Vou cumprir Portugal.

Caetana teve uma vida difícil até se tornar uma menina (nunca terá mais de 30 anos, claro!) bem sucedida e bem relacionada. Teve de fazer o esforço de casar com o proprietário de um famoso banco quando ele estava quase às portas da morte. Foi o seu colo e o seu ombro nesses últimos momentos. Herdou uma fortuna, um sobrenome (sempre antecedido de um “de” que fica sempre bem…) e muitas invejas. Mas Caetana é uma mulher forte e decidida. É a prova viva de que as mulheres independentes e com valores conseguem singrar na vida. Usaria muitos estrangeirismos e mesmo frases em inglês, que lhe daria um ar viajado e fashion.

Voltando ao seu “castelo”. Lux ao final da tarde. No piso de cima, cheio de puf’s e de cor de rosa q.b.…. Este é o ambiente em que Caetana se sente bem. Tendo o rio como pano de fundo, Caetana olha novamente o horizonte. Sabe-se que Caetana olha a outra margem, aquela de onde veio para salvar esta onde se encontra. É aqui que Caetana profere as palavras que a tornarão recordável na História de Portugal e na história das mulheres.

(CAETANA)
Mas afinal, que achais vós?
Bem ou mal? Que credes vós?
Acreditais, não acreditais, que nasci para grandes empreendimentos?
Nasci para ser rica, para provar às mulheres que um SPA de vez em quando faz bem a qualquer alma.
Todos sabeis, não sabeis, que estou marcada por alto fogo?
Do you know what I mean?
Sabei-lo vós, sabem-no os poetas (aqueles que são meus amigos, claro!)
O Natal é uma auto-estrada.
O que me faz voar, sonhar, imaginar, o que me dá força é o coração.


Seria um best-seller? Seria um êxito de bilheteira? Sem dúvida! Ou não estaríamos a falar do Manoel de Oliveira e da Margarida Rebelo Pinto. Aplausos da critica e estrelas dos críticos.


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Publicado em Abril de 2005