Godard e Bardot
por Joana Linda


Le Mépris (O Desprezo) tinha tudo para ser um filme comercial, mas não é. Na altura da sua estreia nos Estados Unidos foi publicitado enquanto tal, recebeu duras críticas e foi considerado uns dos piores filmes de Godard. Quarenta anos depois, Le Mépris é editado em DVD, em parte graças aos esforços de Martin Scorsese, classificado como filme artístico, amado por todos e considerado um dos melhores filmes do realizador francês. Poderia à partida pensar-se que se trata de um simples problema de rótulo, mas não. Le Mépris era, em 1963, um filme fora de época, uma espécie de guarda-chuva ou sobretudo num dia de Verão. E de certa forma continua a sê-lo, para quem o aborda sem preparação prévia ou para quem não consegue passar da primeira meia hora. Para os outros, o filme não se transforma num gelado ou numa blusa fresca, algo mais apropriado a um dia de Verão, não, o filme transforma o Verão em Inverno e de repente sentimo-nos imensamente gratos por aquele guarda-chuva, por aquele sobretudo.

O filme permanece inalterável, caminha no seu ritmo lento sem nunca se apressar, habita os seus espaços vazios sem demonstrar qualquer vontade de os encher, e de repente, sem darmos por isso, reflecte o nosso próprio vazio, porque todos temos um, como um espelho, o mesmo espelho onde Bardot se olha enquanto enumera as diferentes partes do seu corpo nu e pergunta a Paul (Michel Piccoli) o que pensa de cada uma delas. Uma busca da totalidade fragmentada através da identificação das diferentes partes que a compõem. No entanto, esta fragmentação não é exterior mas sim interior, reside no seu crescente descontentamento, na sua fragilidade, no seu medo, na sua desconfiança, no seu casamento.

Jean-Paul Godard retratou as mulheres como poucos realizadores. Embora as recorrentes cenas de nudez deixassem as feministas um pouco desconfiadas, era e ainda é nítido que Godard conseguia ver o mundo do ponto de vista das mulheres e que foi bastante influenciado pelo movimento feminista dos anos 60. Mais cedo ou mais tarde, Godard, o realizador avant-garde e Bardot, o sex-symbol e símbolo feminista, teriam de partilhar a mesma tela. Simone de Beauvoir considerava Bardot uma das verdadeiras feministas modernas, sem medo da sua sexualidade e controlando sempre todas as situações. Em E Deus Criou a Mulher, Brigitte Bardot emancipou a mulher no cinema e ganhou o estatuto de sex kitten, expressão inventada para definir a sua presença, ao mesmo tempo provocadora e inocente, no ecrã. Bardot, independentemente do que dizia na ficha técnica, foi sempre Bardot e é aí que reside o seu encanto.

Em Le Mépris, Fritz Lang, numa reminiscência de Voltaire, diz “Não foram os deuses que criaram os homens, foram os homens que inventaram os deuses”. Se Bardot foi criada pelos deuses ou pelos homens, nunca saberemos ao certo, mas em Le Mépris o mistério da criação de Bardot reside algures entre os deuses e os homens, entre Zeus e Godard. Ela é como uma luz e nós, o público, como pequenos insectos a voar na sua direcção. Godard relembra-nos constantemente a nossa condição de voyeurs ou não fosse Le Mépris um filme sobre um filme, um ensaio sobre o cinema pelo cinema. Nessa dimensão, todos se representam a si próprios, Bardot é Bardot e Fritz Lang é Fritz Lang, um realizador alemão convidado por Prokosch (Jack Palance) a realizar um filme sobre a Odisseia.

Na eterna batalha entre o comercial e o artístico, Paul (Michel Piccoli), é chamado a reescrever o guião de forma a torná-lo mais acessível. Paul aceita o trabalho pelo dinheiro e essa decisão, que implica a traição dos seus ideais, acabará por ter consequências que se alastrarão até ao seu casamento. Casamento que não é só o de Paul com Camille (Brigitte Bardot) é também o do próprio Godard com a actriz Anna Karina. O crítico de cinema Raoul Courtar, definiu Le Mépris como uma carta de Godard para a sua mulher e esta semelhança da ficção com a realidade torna-se evidente quando Bardot coloca uma peruca negra, semelhante ao penteado de Anna Karina no filme Vivre Sa Vie, realizado por Godard um ano antes. A própria personagem de Jack Palance vai buscar algumas das suas características a Carlo Ponti, um dos produtores de Le Mépris, não só no seu temperamento exaltado como na sua relação com Godard enquanto produtor/realizador. Como o casamento de Paul e Camille, também o de Godard e Anna Karina chegou ao fim pouco tempo depois do realizador ter finalizado este filme.

Godard pinta o desprezo enquanto oposto do amor, é já ele que começa a tomar conta do coração de Camille quando ambos chegam a casa e Paul não é capaz de compreender a sua desilusão face à incapacidade do marido a defender dos avanços de Prokosch, empurrando-a quase propositadamente para o adultério, o que ela atribui a uma vontade de não cair em desgraça aos olhos do homem que lhe passa agora os cheques. Camille não responde quando Paul lhe pergunta o que se passa, não responde por pura impossibilidade de tornar claros os seus sentimentos e mais uma vez Paul não a respeita, forçando-a a dar-lhe a resposta que ela própria desconhece com clareza. Ao não respeitar o seu desejo de silêncio, as perguntas e anseios de Paul funcionam como um catalisador destrutivo entre os dois conduzindo-os à tragédia inevitável. Perante tudo isto, Fritz Lang assume quase o papel do coro na tragédia grega, lembrando Paul, no barco, logo após ter desiludido Camille pela segunda vez, impossibilitando-a de o perdoar, de que os homens são impotentes perante a vontade dos deuses.

Assistimos de camarote enquanto a relação de Paul e Camille se deteriora e um pequeno mal-entendido empeça noutro pequeno mal-entendido formando uma enorme bola de neve que os engole aos dois. Vemos como as emoções os impendem de ver com clareza, vemos a incapacidade de Paul se colocar no lugar de Camille, aceitando as suas dúvidas e receios para depois os clarificar. A cena inicial onde Paul diz a Camille que a ama totalmente, ternamente, tragicamente parece ecoar por todo o filme como uma nuvem negra, como se nos interrogasse sobre as consequências de um amor total e absoluto, como se um amor assim estivesse interdito aos homens e tivesse por isso de ser punido. Curiosamente, essa cena foi incluída depois de Godard ter dado o filme por finalizado e Ponti ter protestado por Bardot não aparecer nua. Godard filmou então essa cena que acabou por dotar o filme de uma melancolia ainda maior, agudizada pela fabulosa banda sonora. Não é por acaso que o filme que Lang está a realizar é a Odisseia, não é por acaso que as imagens dos deuses intercalam com as imagens dos homens, que Bardot nada nua no mesmo oceano onde Penélope nada no filme de Lang, é como se a sua tragédia fosse uma e a mesma, como se nos fosse dada a visão dos deuses juntamente com a incapacidade de acção dos humanos. É por isso que embora a adivinhemos, não somos capazes de impedir a tragédia.

Embora a realidade se confunda com a ficção e vice-versa, Bardot e Camille, Camille e Anna Karina, Godard e Paul, esta história transcende a ficção e não se prende a uma realidade única, esta história é a minha e a tua, a tua e a dela, a dela e a dele, como uma enorme roda gigante de nomes e relacionamentos, que embora tenham contornos diferentes, giram incessantemente à volta da dicotomia razão/coração e se despenham no chão com a força de uma bola de canhão, não deixando qualquer rasto daquilo que foram um dia. Le Mépris é sobre o amor como o é um poema, Godard trata as imagens como palavras, com o mesmo cuidado de um poeta que sabe que as palavras existem muito para além do seu significado, da mesma forma que as imagens vivem muito para além daquilo que representam.

 

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Publicado em Abril de 2005