TRANSPLANTES DE ALMA
por Gabriela Ferreira
(Aviso
ao leitor: Caso tenha gostado do filme "Lost
in Translation" e goste da música
"Just Like Honey", agradeço que
a ponha a tocar antes de começar a ler
este texto. Obrigado.)
Há
uma personagem cinematográfica com a qual
é quase impossível um cinéfilo
não se identificar, o Salvatore de “Cinema
Paraíso”. A descoberta da magia do cinema,
a paixão transmitida pela sala escura e
a tela enorme, as sensações causadas
pelas acções que evoluem à
frente dos nossos olhos, tudo personificado nessa
criança. Há personagens assim, que
me invadem, que vão para além da
identificação, que colocam em mim
um pouco de si, um pouco ao qual volto de vez
em quando, seja revendo o filme, seja pensando
nele. Para mim, essa é uma das melhores
prendas que o cinema me oferece, esses transplantes
de alma onde uma certa inocência e uma grande
dose de ternura rasgam e ferem a vida real.
Um dos exemplos mais imediatos que me lembro quando
penso nisto é “O Homem Elefante”. Lembro-me
de estar a ver este filme com a minha mãe
quando tinha dez anos, de ter chorado baba e ranho,
de lhe ter perguntado porque é que as pessoas
eram tão más para ele e de a minha
mãe me ter explicado que o mundo, às
vezes, pode ser injusto. Depois, lembro-me de
ter descoberto, seis anos mais tarde, na fase
em que comecei a conseguir dizer nomes de realizadores,
que esse filme era do realizador que eu dizia
sempre que gostava muito por causa do “Coração
Selvagem”, David Lynch. E este pedaço de
memória ganha vida sempre que me deparo
com um injustiça mesquinha.
Como os sacos de plástico a esvoaçar
e os pássaros mortos. É impossível
olhar para eles, sem me recordar do “Beleza Americana”.
Como no filme, a maneira como olho essas coisas
enche-se repentinamente de uma magia que não
estava lá no segundo antes de abrir a caixa
das recordações. Mas não
são apenas as imagens que provocam isto.
Às vezes é uma música. Já
estava a adorar o “Lost in Translation”, mas na
cena da despedida, quando começo a ouvir
“Just Like Honey” dos The Jesus and Mary Chain
(não tinha lido nada sobre o filme, não
fazia a mínima ideia de que a música
estava na banda sonora) além do arrepio
que senti espinha acima ficou-me uma certeza.
Todas as separações emocionalmente
difíceis têm de ter esta música
como fundo. Não passei por nenhuma depois
de ver o filme, mas sei que vou começar
a ouvir a música na minha cabeça
quando uma acontecer. Mas este aspecto também
desperta algo no sentido contrário. Quando
ouço a música penso sempre: “o que
será feito da Charlotte (personagem de
Scarlett Johasson)?” Eu sei que ela não
é real – quer dizer, o meu lado racional
sabe, mas o meu lado irracional acredita que as
personagens existem para além dos filmes
– mas que rumo terá ela tomado?

O Salvatore percebe-me. Gosto que o cinema me
obrigue a manter este lado irracional. Que me
aproxime da inocência (ou do pensamento
esquizofrénico, depende da perspectiva
de cada um). Que me faça continuar a questionar,
mesmo depois de ter estudado ciências da
natureza e física, como em “É mais
fácil um camelo”. Para onde vão
os balões quando os soltamos?