O
CHOCOLATE E A FÁBRICA DE CHARLIES
por Diana Martins Moreira
Escolher um filme que acolhesse o espírito
da época não é tarefa fácil. Até porque, nos últimos
tempos, isto de espírito anda escasso. Deambulei
por entre mensagens profundas, como a dos Gremlins
onde se explora o bíblico "não banharás os teus
animais de estimação de origem duvidosa", ou a
sensacionalista "não esquecerás o teu filho loiro
e traquinas trancado em casa pelo Natal" dos Sozinho
em Casa.
Não
encontrei nada que fosse aquele sopro de reencontro
com o espírito do Natal. No entanto, descobri
algo muito próximo numa fábrica de chocolate.
As fronteiras entre os bons e os maus são as clássicas,
e funcionam naquele fenómeno que nunca cheguei
a compreender completamente, onde o anti-capitalismo
parece ser conforme ao sistema. Quer dizer, os
pobres são queridos, afáveis e mártires, os donos
das empresas só querem saber de lucros e números,
a classe média é um enorme umbigo, mas depois
não há conclusão nenhuma a retirar deste bocado
de raciocínio. Nem tinha que haver, isto é um
filme.
Os
pecados mortais são encarnados por cada uma das
crianças em jogo, para nos mostrar que não devemos
ter soberba, nem ira ou gula. Os personagens tipo
nunca estiveram tão em alta desde A Barca. E aqui
eles são extremamente úteis porque vão explicando
aos pequenos que, se continuarem vidrados nas
consolas e a encher o bandulho com porcarias nunca
vão ganhar nada na vida, e que devemos ser bons,
nem que seja por interesse. Agora a maravilha
deste, como de qualquer outro filme de Tim Burton,
é que há sempre aquele bocado de limão ácido que
corta o enjoativo em que acabam por cair alguns
dos filmes doces de natal. Neste há os Oompa-Loompas,
pequenos homens tribais, viciados em cacau que
emigraram em massa para a fábrica onde comem todo
o cacau que querem e se fartam de cantar de cada
vez que é feita justiça com um dos putos parvos.
Mas na vida real o que não faltam são putos parvos
com pais a combinar, e de justiça nada, e menos
musiquinhas com coreografias giras para acompanhar
a justiça.
A
Fábrica foi mesmo o mais próximo que consegui
chegar desta vaga ideia que ainda tenho de como
era o Natal quando eu era pequena. Neste filme
tudo é idealista. A pobreza é linda, que não há
amizade e compreensão maior que entre quatro idosos
sem mobilidade obrigados a partilhar a mesma cama,
nem amor mais cúmplice que o de uma desempregada
e um operador de linha de montagem de tampas de
pasta-de-dentes, forçados a comer água quente
com couves todos os dias. No meu país a pobreza
é um ciclo quase inquebrável, de onde resulta
invariavelmente mais pobreza. Os pais de famílias
pobres têm filhos com poucas condições de estudo,
que vão dar em mau desempenho escolar que vai
resultar em empregos precários. No meu país "casa
onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão",
os idosos inválidos são mais uma boca a querer
comer e as crianças uma chatice porque só se as
pode meter a trabalhar aos dezasseis. O meu país
não tem nada a ver com sonhos. Este filme tem
tudo. E eu já não consigo ter aquele pequeno natal
em mim, como tinha quando era pequena. Isto é
só o mais próximo que consegui. A verdade é que,
nestes últimos natais, não há filhós que me tire
o amargo sabor a falso.
Publicado em Dezembro de 2005