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LAGOA AZUL
por Diana Martins Moreira


Este é um daqueles filmes que é a cara da TVI num Domingo à tarde. Não há que enganar. Até porque em poucos outros lugares presenciamos tensão sexual entre irmãos sem sentir certa repulsa (isto lançava outra vez o desafio dos Skymaias, no qual quase ninguém pegou, mas não vou por aí, que não sou rancorosa. Só tenho boa memória).

De qualquer forma, um dos encantos da Lagoa Azul está no traçar de um retrato agridoce do regresso à natureza pura, que não só é um tema querido dos etnólogos do século XIX como também de gente que até não se importa de ver a Brook seminua (sim, provavelmente, tendo essa hipótese, os senhores etnólogos do século XIX também não diziam que não). Mas é um regresso edificante, mostra-nos de novo o corpo sem aquela pressão religiosa e as emoções andam tão à solta quanto os mosquitos.

Notável também é compreender a origem do riso. Nesta ilha aprendemos que o sentido de humor Malucos do Riso tem lugar em micro culturas isoladas onde o divertimento é equivalente directo e exclusivo de tropeções, tombos e asneirada a rodos. Comove-me.



Comovo-me ainda com a beleza. Tudo é lindo. Ele é lindo, ela é linda, a ilha é um espanto. E tudo ao natural! Balelas, portanto. Já guardei a minha comoção no soutien de cocos e sugiro que façam igual (ou parecido). O natural não é lindo. O natural não é nada disto. O natural seria dois sub nutridos, estorricados pelo sol, chupados pelos insectos e pêlos. Sim pêlos! Faltam pelos nesta película meus senhores e faltam muitos. Faltam pêlos em axilas, em pernas, em virilhas, em todo o lado. Que ele seja imberbe e não tenha pêlos na cara ou no peito, ainda vá. Mas, ou aquela minha (e não há aqui ponta de inveja) se entreteve na ilha a fazer misturas de mel com lama e acabou por inventar uma tonificante e revolucionária cera depilatória, ou aquela linha de biquini é um embuste.

Que a Pocahontas ande para lá com cabelo luzidio quando nunca usou champô na vida, passa. Que a bela adormecida esteja novecentos anos a dormir nas calmas para acordar sem olhos inchados e um hálito nauseabundo, passa. Mas passa porque são desenhos animados. Não me façam apaixonar por um sítio onde, em boa verdade, este Richard e esta Emmeline, estariam com a boca forradinha de dentes partidos, esverdeados e podres.

Infelizmente este filme nasceu no mesmo ano que eu. Torno-me sentimental em relação a tudo que venha sem chumaços da minha geração. Não o consigo evitar.






Publicado em Julho de 2005