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CINECITTÀ - CINEMA E CULTURA POP
por Joana Linda


Abriu, em meados de Abril, em Lisboa, uma loja dedicada inteiramente ao cinema e à cultura pop, com DVDs, posters, t-shirts, livros, postais, e mais alguma coisa. Se dito assim pode parecer que não é nada de novo, a criteriosa escolha dos filmes à venda marca toda a diferença. Cinecittà, é uma loja de cinema de culto que ameaça tornar-se rapidamente, também ela, um local de culto para todos os que gostam de cinema. A Clarice resolveu apoiar e divulgar este projecto para que não lhe aconteça aquilo que normalmente acontece a (quase) tudo o que de bom e alternativo vai aparecendo neste país. Entrevistámos o responsável por isto tudo, Vasco Menezes, que não só nos recebeu muito bem, como nos deu uma verdadeira lição de cinema.

Porquê uma loja dedicada inteiramente ao cinema?

Era já uma ideia antiga. Foi uma coisa em que fui pensando durante alguns anos porque gosto muito de cinema e estou ligado ao cinema desde pequeno. Sempre que tinha hipótese de ir para fora e fazer algumas compras, era sempre nisso que gastava o meu dinheiro. Achava que havia uma lacuna cá em Portugal, em termos de oferta de produtos relacionados com o cinema, que era necessário preencher. No entanto, sempre tive muitas dúvidas sobre a existência de público que justificasse a abertura de algo assim. Ainda estou à espera da resposta.


Estás profissionalmente ligado ao cinema ou és apenas apreciador?

Sou apenas apreciador. O gosto foi desenvolvido sobretudo pelo meu pai, embora a minha mãe também goste bastante de cinema. O meu pai (Salvado Teles de Menezes) foi crítico de cinema, director do Festival de Cinema de Tróia, dava aulas na Faculdade de Letras também sobre cinema, etc. Desde cedo me lembro de ir para o festival de Tróia ver filmes do Kazaquistão e de outros países. Não percebia nada mas ficava fascinado por aquele mundo. Ainda pensei em seguir cinema mas acabei por seguir Direito. Depois de sair da universidade surgiu a oportunidade de escrever sobre cinema no Y do Público. Ao fim de algum tempo comecei a perceber que também não era bem aquela relação que queria ter com o cinema e foi a aí que comecei a pensar mais seriamente na ideia da loja.

Quais são os teus critérios de escolha no que diz respeito aos artigos e filmes que tens aqui à venda?

Não tenho pruridos em termos de géneros ou proveniências geográficas, podia dizer que sigo um critério de qualidade mas isso também é muito subjectivo, a ideia principal é a da singularidade. Trazer coisas que não existam no mercado nacional em DVD ou que sejam mais difíceis de encontrar. O critério é esse, é não ser convencional, desde o cinema mudo alemão, aos filmes asiáticos mais recentes, o cinema trash série B e série Z, uma das minhas grandes paixões. Apesar disso, não tenho tantos filmes desses aqui como gostaria porque dentro de um público já de si restrito, o publico para esses filmes em Portugal é ainda muito mais restrito.



Queres explicar um pouco melhor o que é isso da opção Compra e Venda?

Sim, é perfeitamente legal. (risos) O difícil é falar sobre isso sem induzir as pessoas em erro porque na publicidade que temos estado a fazer, a palavra tabu é o aluguer. Já pensei em ter ali alguma coisa a dizer “aluguer alternativo”, talvez fosse a melhor maneira de o explicar. Dizer compra e venda remete logo para lojas que compram DVDs em segunda mão e também não é bem isso que se passa aqui. É uma possibilidade de a pessoa levar o filme, um que tenha ouvido falar e queira ver mas não forçosamente comprar, ou que quer comprar mas está um pouco receosa e quer ver se vale a pena, e depois devolvê-lo. O que nós oferecemos é a possibilidade da pessoa, deixando cá o dinheiro como se estivesse a comprar e sabendo obviamente que tem três noites para o entregar, levar filmes num sistema próximo do dos clubes de vídeo. A pessoa deixa cá ficar o dinheiro como se fosse comprar e passadas essas 3 noites devolve o filme, e recebe o dinheiro de volta menos cinco euros, o preço do aluguer. Desde o início que quis apostar mais no aluguer que na venda porque assim dava a mais pessoas a oportunidade de verem os filmes. Como são maioritariamente DVDs de importação, são um pouco mais caros que os outros e nem sempre as pessoas têm poder de compra para isso.

Dentro dos filmes que estão na secção Compra e Venda quais gostavas de destacar?

Todos. Há filmes de cinema série B americanos, completamente obscuros, para quem gosta. Bone, o primeiro filme do Larry Cohen, um dos filmes mais importantes dos anos 70, raríssimo, esteve perdido durante muito tempo. O Jess Franco (aka Jesus Franco), as adaptações que ele fez do Marquês de Sade, Eugénie, Justine, que também são bastante curiosos. A primeira parte da obra do John Waters, desde o Pink Flamingos ao Desperate Living e Polyester, que também é um tipo de cinema de culto que não se encontra facilmente. Outras coisas mais ligadas ao cinema asiático que agora está a receber mais atenção. Filmes antigos do John Woo antes de ir para os Estados Unidos, como o The Killer e o Hard-Boiled. O próprio filme anterior ao Oldboy do Park-Chan-Wook, Sympathy for Mr. Vengeance. Mais coisas … Mario Bava, Lisa and the Devil (La Casa dell'esorcismo) … coisas do terror italiano … Dario Argento. Uma colecção de curtas do Andy Warhol, algumas coisas do Murnau, o Nosferatu, o Fausto também. Há muito por onde escolher.

O que é que consideras a jóia da coroa da Cinecittá?

É complicado. Há coisas de que me orgulho de ter por outras razões, mas talvez pelo valor das edições em si, estas edições italianas da Raro (http://www.rarovideo.com/) com cinema de autor e cinema underground. Por exemplo, esta edição de dois filmes do Alejandro Jodorowski, que parece que vai fazer um novo filme com o Marilyn Manson, um autor muito mais conhecido pela sua vertente de banda desenhada mas que tinha estes filmes dos anos 70 que são coisas completamente bizarras. Depois esta trilogia do Paul Morrissey, o Four Silent Movies do Andy Warhol e ainda outro, que também é da mesma editora, uma colecção de filmes escritos pelo William Burroughs, um concerto dos Velvet Underground filmado pelo Andy Warhol. Talvez sejam estas edições as que destacaria.

As tuas escolhas de cinema a nível pessoal reflectem-se no que tens aqui?

Refletem-se mas por acaso os meus filmes preferidos não estão aqui. O meu filme preferido chama-se Big Wednesday, um filme americano do final dos anos 70, realizado pelo John Milius, mais conhecido como argumentista, daquela fase na nova Hollywood dos anos 70, o Scorsese, Coppola, é um desses movie brats que apesar de ser bastante importante, em termos de escrita, como realizador é um pouco realizador maldito porque tem alguns filmes um pouco extremos a nível político. Na altura em que apareceram não foram muito bem recebidos, o que contribuiu para ele desaparecer. É um filme que eu acho lindíssimo. Os protagonistas são três surfistas mas não é um filme sobre surf, até porque eu nunca fiz surf na vida nem me interessa especialmente, embora ache um desporto bonito em termos estéticos. É um filme que fala um pouco da passagem da adolescência para a idade adulta. Faz um bocado o retrato dos Estados Unidos nos últimos 20 anos e é uma coisa singular e estranhíssima porque mistura mitologia e misticismo e, claro, surf. Depois tenho filmes que vi quando era mais novo e que vou revendo ao longo dos anos e que se calhar têm esse valor para mim porque foram vistos numa idade específica. Não quer dizer que se os apanhasse agora não achasse bons, reconheço-lhes qualidades cinematográficas, mas são coisas que estão também ligadas ao tempo em que as descobri. É o caso do filme do poster que está na montra, só para exposição, não está à venda, The Warriors. Outro filme também do final dos anos 70, também americano, um período de tempo que tem bastantes filmes que eu gosto muito. Tem também um pouco a ver com mitologia e há uma mistura de filme de gangs com uma BD surreal. Pinta a cidade de Nova Iorque quase como uma metrópole deserta, em termos abstractos, e é muito interessante, é um filme também muito curioso. Um tipo de cinema que eu acho que já não se faz, que já não existe, mas que eu gosto bastante.

E realizadores?

Eu costumo dizer que o meu realizador preferido, de cabeceira, que por acaso não é o realizador de nenhum desses filmes, é o John Carpenter. Também é uma daquelas coisas que está ligada à minha infância, à minha juventude. Aliás, é o único cineasta do qual eu tenho os filmes todos, tirando um ou outro filme de televisão. É o único cineasta que eu posso dizer que gosto de tudo.


Como vês a Cinecittá no futuro, qual seria para ti a loja ideal?

A loja ideal seria uma espécie de Ler Devagar mas apenas dedicada ao cinema. Um espaço amplo que fosse além da simples loja, que fomentasse o diálogo e o convívio entre as pessoas que gostam de cinema e querem discutir ou trocar ideias. Um lugar onde se pudessem realizar outras actividades, como por exemplo workshops. Também gostaria de ter outro tipo de produto, no que diz respeito ao merchandising, que não passasse só pelos posters e a t-shirts. Tudo isso depende de como correrem as vendas porque implica uma maior segurança no que diz respeito à pergunta que fazia no início sobre a existência, ou não, de um mercado nacional para este tipo de produto.



Publicado em Julho de 2005