CREATURE FROM THE BLACK LAGOON,
JACK ARNOLD, 1954
por Jorge Amaral 
A
mulher que nada à superfície
parece estar nua. Do ponto de vista da
criatura, o fato de banho branco luminoso
é tornado invisível pelo
contra-luz."É uma imagem memorável,
tanto que Steven Spielberg a roubou para
a abertura de Jaws, mas não tem
comparação com o que se
segue. O bailado/cópula com a bela
e o monstro a nadarem em paralelo, ela
alheia à sua presença, tem
o seu lugar garantido entre as grandes
representações de voyeurismo
no cinema. E durante toda a sequência
nunca tememos pela segurança da
nadadora. Como a girl de Marilyn Monroe,
em The Seven Year Itch, sabemos que o
monstro "was kinda scary looking,
but he wasn't really bad. He just craved
a little affection. You know, a sense
of being loved and needed and wanted."

A
Creature from the Black Lagoon nasceu
à hora do jantar, em casa de Orson
Welles, de uma história contada
pelo fotógrafo mexicano Gabriel
Figueroa sobre homens-peixe do Amazonas,
que uma vez por ano emergiam para raptar
as mulheres das aldeias. Para William
Alland, um Mercury Player a aventurar-se
pela produção na série
B, estava ali um filme. Só era
preciso adicionar o arco narrativo de
King Kong (do qual o filme, se visto em
conjunto com a sequela Revenge of the
Creature, é praticamente um remake),
e arranjar um monstro digno de encher
as pegadas do gorila gigante.
A
fórmula monster meets girl podia
ser batida, e por esta altura dispensa
certamente a sinopse, mas a execução
acabaria por dar ao filme um merecido
estatuto de clássico. Alland recrutou
Jack Arnold, a caminho de se tornar um
dos mais prolíficos e interessantes
autores B dos anos 50, para realizar o
projecto. Dono de um excelente sentido
visual e de ritmo, Arnold é ainda
hoje um dos mais subvalorizados realizadores
da época. Foi ele que transformou
o que podia ser apenas mais um monster
movie numa das mais belas e divertidas
aventuras de género da história
do cinema. E Creature não foi um
acidente feliz, como viriam a provar os
excelentes The Incredible Shrinking Man
ou High School Confidential, apenas dois
exemplos de uma carreira que acabaria
eventualmente por se afundar em subprodutos
cinematográficos e programas de
televisão, dada a sua origem num
género que não era levado
a sério.

O
realizador foi também responsável
pela origem invulgar da criatura, ao insistir
que se tratasse de uma estilização
aquática da estatueta do Oscar.
Millicent Patrick, famosa por ter sido
a primeira mulher a trabalhar como animadora
na Disney, desenhou o bicho, entretanto
apelidado de Gill Man, e Jack Kevan esculpiu-o.
O seu trabalho resultou no mais icónico
e influente monstro de uma década
em que os ecrãs americanos fervilhavam
de extraterrestres e mutantes radioactivos,
e, muito possivelmente, no melhor "fato
de borracha" alguma vez criado em
Hollywood. Depois o lendário chefe
do departamento de maquilhagem da Universal,
Bud Westmore, fez jus à sua fama
de egocêntrico e ficou-lhes com
os louros.
O
principal argumento que Alland utilizou
para vender o projecto ao estúdio
foi que este seria filmado em 3-D, um
processo que estava à altura no
auge dos seus 15 minutos de fama, e com
o qual Arnold e ele tinham obtido um considerável
grau de sucesso em It Came from Outer
Space. Diz quem o viu projectado nas condições
ideais que é o melhor filme em
3-D de sempre. Eu vi-o na famosa emissão
tri-dimensional da RTP e a única
coisa que me lembro de ter ganho foi uma
dor de cabeça. Mas Arnold era bom
demais para passar o tempo a atirar coisas
ao ecrã só para fazer valer
o gimmick, e a fotografia subaquática
de Charles S. Welbourne é deslumbrante
mesmo no formato plano em que o filme
passou a ser exibido a partir dos anos
50.
O
elenco foi recrutado das fileiras de actores
sob contracto com a Universal, sem recurso
a grandes estrelas, que achavam o terror
e a ficção-científica
géneros menores. Julia Adams, uma
starlet a terminar o prazo de validade,
aos 28 anos, gabava-se de ter as melhores
pernas na tinseltown e um certo fato de
banho branco luminoso acabaria por lhe
dar finalmente a oportunidade de as mostrar.
Para o leading man nominal Richard Carlson,
especialista em papeis de cientista a
investigar alienígenas e outras
ameaças, seria mais um repescado
de It Came from Outer Space. O triângulo
amoroso à superfície ficava
completo com Richard Denning, outro profissional
dos Bs. Mas o verdadeiro "herói"
da fita estava debaixo de água.
Dois
homens vestiram o fato da criatura para
o filme original e nenhum deles é
creditado no filme. Ben Chapman, um duplo
originário do Tahiti, filmou as
cenas em terra depois do ex-monstro de
Frankenstein Glenn Strange recusar o papel.
Até hoje Chapman proclama ser o
"verdadeiro" Gill Man, baseado
no facto de ter posado para as fotografias
promocionais e ter carregado a menina
Adams ao colo no clímax da história,
arrastando-se com a ajuda de pesos de
cinco quilos que o realizador lhe colocou
nos pés. A mim parece-me mais importante
o contributo de Ricou Browning, o ex-mergulhador
das forças armadas que estava dentro
do fato nas cenas subaquáticas.
A sua graciosidade e o estilo de natação
peculiar que desenvolveu para o filme
são responsáveis por todos
os melhores momentos do monstro, aqueles
que, por paradoxal que pareça,
mais contribuem para o humanizar. E as
condições de trabalho não
eram as melhores. Como os autores tinham
definido que a morfologia do Gill Man
implicava que este não expelisse
bolhas de ar quando se encontrava debaixo
de água, Browning tinha de suster
a respiração até
quatro minutos de cada vez para completar
os seus takes. Só na segunda sequela,
The Creature Walks Among Us, é
que o monstro teria direito a um par de
pulmões.

O
estúdio viu-se com um sucesso estrondoso
nas mãos logo à data da
estreia. As sequelas, e sucessivas emissões
em incontáveis matinées
televisivas, cimentaram o culto entre
os originais monsterkids dos anos 50 e
60 que entronizaram o Gill Man ao lado
do Dracula de Lugosi e do monstro de Kaloff
no panteão dos grandes monstros
do cinema. E como estes transcendeu esse
estatuto para passar a fazer parte da
cultura pop. Haveria de certeza algo a
dizer sobre a sua adopção
por teenagers, o corpo em mutação
e a sexualidade a despertar, que apenas
se sentem graciosos no fundo da sua lagoa
negra mental. Mas um filme tão
divertido não merece ser vendido
à conta do subtexto. Anos depois
a criatura pode parecer mais ingénua
mas a sua capacidade de nos conquistar,
como conquistou a girl do The Seven Year
Itch, parece-me intacta. E continua a
ser tão fácil apaixonarmo-nos
pela bela como pelo monstro que a observa
a nadar à superfície na
contra-luz que a faz parecer nua.
Publicado em Julho de 2005