SE NOS ENCONTRÁSSEMOS NUMA ESTRADA DESERTA ...
por Joana Linda


A imagem não tem data, tudo nela seria convencionalmente amarelado, mas não é, é azul. Azul como o veludo e como deveriam ser sempre os finais de tarde, mesmo no Verão.

Não passou ainda por ela a erosão cromática que aflige o papel mas ainda assim é fácil ver que não é recente. Isabella Rosselini talvez na casa dos 20, ainda que por pouco tempo, Martin Scorsese de barba e cabelo comprido.

Casaram no dia 29 de Setembro de 1979, divorciaram-se em 1983. Era o primeiro casamento dela, o terceiro dele. Ela era, nas suas próprias palavras, europeia, ingénua, antiquada e ele americano, aventureiro, interessante, “so it couldn't have lasted”, comentou ela mais tarde.

O destino era Monument Valley. Não sei se estavam a ter um dia bom ou mau, se continuavam apaixonados ou se os invadia já a indiferença, a monotonia o cansaço. O caminho é-me familiar ainda que nunca lá tenha estado. Conheço-o de vários filmes, de filmes bons e filmes maus, a estrada interminável no meio do deserto e lá ao fundo a rocha cor de laranja, imponente e solitária.

Tiveram um furo. Suponho que fizesse calor. A pele suada de Isabella, o ar afogueado de quem está feliz por ser salva, a camisa meia aberta. Sim, fazia calor.

Martin estava deitado debaixo do carro, tentava mudar um pneu. Aproximou-se um carro, um homem parou para os ajudar, deu-lhes boleia. Por certo não os reconheceu ao longe, a probabilidade de os encontrar naquele lugar seria impensável. Tento imaginar esse momento, as primeiras palavras.

Deu-lhes boleia, tirou-lhes uma fotografia. Uma fotografia azul como se fosse essa a cor da felicidade. Sorriem, partilham o banco de trás de um automóvel. Parecem reais nas suas roupas, cabelos desalinhados, ausência de maquilhagem, mas ao mesmo tempo cinematográficos nas emoções, no acaso improvável, na surpresa, na leveza, na cumplicidade.

Tirou-lhes uma fotografia. Anos mais tarde editou um livro, chamou-lhe Once. Um livro sobre os pequenos momentos da vida, os momentos únicos e singulares, as coincidências, os encontros inesperados, as imagens que contam uma história, que são o início de uma história: “Every photo, every ‘ONCE’ in time is also the beggining of a story starting ‘one upon a time.’ Every photo is the first frame of a movie.”

Sobre esse dia em particular, escreveu:

Once I met Martin Scorsese on his way to Monument Valley. He was lying under his car trying to change a tire. We gave him and Isabella a lift. It was a cheerful trip.

E assinou,

Wim Wenders

 

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Publicado em Junho de 2005