FADE TO BLACK
por Rute Gonçalves



Quatro salas de cinema contribuíram para moldar a minha cinefilia em diferentes alturas da minha vida. A sala Nina , a 100 metros da minha casa foi, indiscutivelmente, aquela que mais relevância teve por ser um capítulo importante da minha infância/adolescência. A recente notícia do seu encerramento deixa uma certa tristeza nostálgica. (Mais um cinema local que encerra as portas para dar lugar aos odiosos multiplexes na periferia das localidades). O que era uma referência física passa a existir apenas como uma recordação do meu imaginário. Verdade seja dita, a última vez que entrei naquela sala em Maio de 2002, foi uma espécie de aniversário/ritual comemorando os 20 anos da estreia do E.T - a coisa não correu lá muito bem e a constatação da dobragem do filme foi uma experiência de tal modo traumática que fugi dali direita à bilheteira para exigir o meu dinheiro de volta. O episódio prova que não se pode as emoções do passado mas, o encerramento da sala não deixa de ser um triste acontecimento.

Não consigo precisar com factualidade o ano de abertura do cinema mas lembro-me de cada momento que ali passei. Ao longo de mais de duas décadas a sala de cinema, parte integrante do mini centro comercial com reputação duvidosa (o centro albergava um salão de jogos e uma discoteca), foi um ponto de referência, refúgio, escape, ponto de encontro e pausa para apreciar os deliciosos croissants com doce de ovos no intervalo de cada sessão.

Primeiro foram as manhãs infantis. Às 11h, lá estava para recordar os velhos (para mim, novos) clássicos da Disney - na altura dobrados em brasileiro. Recordo-me da atribulada sessão infantil da Branca de Neve e os Sete Anões, à pinha com pais a ameaçar invadir a sala se os seus filhos não tivessem lugar no interior. Eu fui uma, das muitas, sentadas nas escadas. No início assistia aos filmes com a minha mãe, algum tempo depois, implorava para ela me deixar ir sozinha - só mesmo os miúdos têm pachorra para ir ao cinema às 11h da manhã e, o cinema ficava a 100m.

Seguiram-se as matinés com os amigos, a transição entre desenhos animados e imagem real. Um filme em particular marcou essa mudança de atitude para com o cinema. Em 1982 estreava o E.T - O Extraterrestre de Steven Spielberg, tinha 4 anos e nem sequer sabia ler as legendas mas as imagens impressionaram-me de tal modo que o filme foi e continua a ser aquele que definitivamente revelou o meu Amor pelo Cinema. Recordo-me de passagens distintas e de chorar de tal modo que a minha garganta inchou e o nariz entupiu ao ponto de estalar os ouvidos. Ainda hoje vejo o E.T com uma toalha!...

A entrada na Universidade, permitiu um maior acesso e diversidade de filmes nas salas de Lisboa. o S. Jorge e as Amoreiras refinaram a minha cinefilia marcando as tardes sozinha, longe do stress universário mas os serões passados na sala Nina permaneceram.

Um filme visionado numa sala de Cinema adquire uma dimensão mística que nenhum outro formato (tv/vídeo) consegue igualar. Ali sentada no escuro, após ouvir o gongo e assistir ao deslizar dramático das cortinas, o filme revela-se uma experiência alucinante apenas comparável à passagem através do espelho mágico da Alice no País das Maravilhas. Assim que a escuridão da sala dá lugar à imagem projectada numa tela entramos numa dimensão subliminar onde, por duas horas, o Mundo é nosso, somos quem quisermos, teletransportados para uma realidade mágica capaz de sobressair em nós emoções que julgamos não sermos capazes de sentir.

O encanto musical de "Pinóquio", a emoção desenfreada de "Regresso ao Futuro", as gargalhadas em "Quem Tramou Roger Rabbit", A exortação mágica de "Willow na Terra da Magia" (10 vezes melhor que a completa trilogia de "O Senhor dos Anéis". A exaltação do herói em "Indiana Jones e a Última Cruzada" ("Everybody is lost but me!..."), o encanto romântico de "Pretty Woman - Uma Mulher de Sonho" a náusea do sangue vermelho no preto e branco de "A Lista de Schindler", a adrenalina em "Die Hard - "Assalto ao Arranha Céus" ("yipppppppi kay hey motherfucker!"). A emoção de reviver a re edição de "a Guerra das Estrelas", a beleza de "Danças com Lobos", a ternura de "Ghost - Espírito do Amor", o deleite visual em "Point Break - Ruptura Explosiva", a sedução enebriante de "Drácula de Bram Stocker" ("I've crossed oceans of time to be with you"). A estranheza sedutora do Jim Morrison de Val Kilmer em "Doors - O Mito de uma Geração", o delírio cómico de "Quatro Casamentos e um Funeral", o encore de Speed - Perigo a Alta Velocidade", "Robin dos Bosques - Príncipe dos Ladrões", "Lendas de Paixão" ("Tristannnnnnnnnnn!!!!!!!!!... Samuellllllllllllllllllllll!!!!").

O Cinema visionado em sala de cinema representa tudo isto e muito mais. A sala Nina não detém a exclusividade do monopólio das emoções mas, sem ela a percepção que tenho do Cinema não existiria.

Um brinde à Sala Nina por gloriosos 20 anos, para sempre na minha memória.

 

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Publicado em Maio de 2005