FINAIS FELIZES OU O HOMEM QUE VIA FILMES PARA TIRAR APONTAMENTOS
por Joana Linda


O cinema não existe para nos paralisar perante a imagem de uma existência perfeita que nos impede de apreciar a realidade como ela é ou para nos mostrar uma felicidade real mas que contempla apenas os mais afortunados, o cinema existe para tirar apontamentos.

Depois de as luzes se apagarem e todos irem para casa, quando na sala só está a senhora da limpeza a apanhar do chão as pipocas, o milagre somos nós, os heróis somos nós, os galãs somos nós. O ser humano não vem com livro de instruções mas de certa forma o cinema preenche essa falha da natureza. Metros e metros de fita que nos ensinam a melhor maneira de abordar alguém na rua, de nos defendermos de um assaltante ou até mesmo de pedir desculpa.


Out of Africa

Seja qual for o enredo do filme, seja qual for o QI do seu público-alvo ou o nível de crueldade dos golpes aplicados, o desfecho é sempre o mesmo: a redenção, a maravilhosa catarse, o equilíbrio mágico dos pratos da balança. Mas se já sabemos que o artista nunca morre e que o casal, apesar de todas as contrariedades, acaba por ser feliz para sempre, porque raio continuamos a ir ao cinema? Por isso mesmo, para vivermos essa fantasia, um mundo justo onde o bem vence sempre o mal, onde o anel é destruído, os criminosos postos na cadeia e as noivas se vestem sempre de branco. Mas os filmes não duram para sempre, as letrinhas The End acabam por nos apanhar mais cedo ou mais tarde mas mesmo assim saímos da sala com um novo alento para encarar a realidade, isto é, até a encararmos realmente.

Não é que o cinema nos minta, não é isso, o que acontece é que o cinema raramente nos conta o que acontece depois do fim do combate, raramente nos deixa ouvir as palavras ditas depois do sim. Alguma coisa teria de ficar à nossa responsabilidade não é?


Finding Neverland

Há quem passe a vida à espera de ouvir um I Love You em vez de um Eu Amo-te, pessoas que não se conseguem livrar do estigma cinematográfico do conto de fadas, como se cá fora, onde não existem projectores, guarda-roupa feito por medida e efeitos-especiais, todas as chances de verdadeira felicidade fossem como um pacote de leite que sabemos de antemão estar azedo e não abrimos. Na verdade, não há pessoas que amam mais que outras, porque o amor não é quantificável, e também não há relações mais perfeitas que outras, há sim pessoas com mais ou menos imaginação. Como em todas as outras coisas da vida, o amor também precisa de uma boa campanha de marketing. Por outras palavras: Make it happen! Tudo o que precisam é apenas de uma folha de papel, uma caneta e força de vontade.


Big Fish

A vida é tão interessante quanto nós quisermos que ela seja. Só acabamos debaixo da terra a ser comidos pelas minhocas se quisermos, há sempre outra alternativa, como tornarmo-nos um grande peixe, o maior peixe de todos e comermos essas mesmas minhocas e as irmãs delas.

Porque esse é o segredo de um bom filme, porque esse é também o segredo da felicidade.


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Publicado em Maio de 2005