THE HUNGER, OS VAMPIROS TAMBÉM MORREM

por Gabriela Ferreira



“The Hunger (Fome de Viver)” é uma luxuosa reunião de artistas: Catherine Deneuve, David Bowie, Susan Sarandon e Bauhaus. Sem esquecer os mínimos segundos em que aparece Willem Dafoe, figurante com uma fala, creditado como “2nd phone booth youth”. Essencialmente é um filme que vale por estes nomes. Depois, para quem gosta de vampiros não deixa de ser uma obra curiosa. Em termos narrativos, afasta-se do vampiresco comum mas não deixa de passar por lá para prestar homenagem.



Bela Lugosi’s Dead…

Undead, undead, undead… é assim que começa “The Hunger”. Um início brilhante com os Bauhaus dentro de uma jaula a tocar o hino ao eterno drácula. Se não for por mais nada, o filme vale por este momento. Estamos numa discoteca gótica onde o casal de vampiros John e Miriam (Bowie e Deneuve) procuram vítimas. Um ambiente soturno onde todos se mantêm ocultos na escuridão, excepto os predadores, as presas e Peter Murphy, o mestre de cerimónias. No melhor da postura teatral que caracterizava a banda em palco, Murphy brinca com a câmara, com as grades, com os focos de luz, com o casaco que o envolve como uma capa vampiresca, seduz-nos com olhares e expressões, mexe-se como um felino enjaulado. Uma espécie de cúmplice que nos alicia a assistir a um espectáculo macabro, que no fundo repudia mas que nada pode fazer para o impedir. Um prelúdio que ajudou a vender o filme em 1983 mas que não é mais do que isso, um prelúdio. John e Miriam movimentam-se noutros meios durante todo o filme, passando do ambiente gótico para algo mais clássico e com mais classe.

Curiosa é a forma como a banda sonora deste filme se desdobra em coincidências. Num dos ataques de John ouve-se “Funtime” de Iggy Pop, do álbum que Bowie produziu, “The Idiot”. A coincidência é Peter Murphy, anos mais tarde, já na sua carreira a solo, ter feito duas versões para esta música. E é também curioso que o outro momento em que o podemos ver dentro de uma jaula seja no vídeo de “Ziggy Stardust”, a versão que os Bauhaus fizeram do original de David Bowie.



Forever… and ever

A palavra vampiro nunca é referida no filme. Não há dentadas no pescoço, nem sequer dentes pontiagudos. Em “The Hunger”, John e Miriam alimentam-se de sangue humano fazendo uma incisão no pescoço das vítimas com um pequeno punhal em forma de ankh, o símbolo egípcio da vida eterna. E é isso que Miriam promete a John, vida, juventude e amor eternos. “Forever… and ever”. Mas é uma promessa que não pode cumprir. Aqueles que escolhe para seus amantes não deixam de ser mortais. Num dia, John envelhece os séculos que o sangue humano lhe poupou, até se transformar num cadáver vivo.

“The Hunger” é realizado por Tony Scott. Exactamente, o do Top Gun. Um senhor com opções e gostos um pouco duvidosos e que neste filme mete os pés pelas mãos algumas vezes mas que no meu balanço final se sai bem porque quando acerta, acerta em cheio. O primeiro tiro certeiro é precisamente a banda sonora. Juntam-se a Bauhaus e Iggy Pop, a música original composta por Denny Jaeger e Michel Rubini e a ambiência perfeita de Ravel. O segundo é o elenco. Catherine Deneuve interpreta Miriam, a vampira altiva e poderosa que faz lembrar uma aranha implacável ao seduzir as presas para a sua teia. Deneuve constrói uma personagem admirável e irresistível (quando se pensa em descrevê-la começam a faltar-nos os adjectivos), capaz de enfeitiçar com um único olhar. Não dá passos em falso, os seus movimentos são lentos, precisos e preciosos, o seu corpo majestosamente esculpido pelas roupas. Quanto a Bowie, não deixa de ser irónico que interprete um homem que envelhece décadas a cada hora que passa e que termine o seu papel na forma de um monstro, quando na realidade se mostrou um dos melhores exemplos de envelhecimento gracioso (a nível físico e musical). O avô do “Massacre no Texas” é nojento até se ver a múmia em que Bowie se transforma neste filme. Para completar o trio, Susan Sarandon e a sua sensualidade explorada sem limites.



À medida que John envelhece centenas de anos num dia e que Miriam sabe que esse é o fim do seu amante, Sarah (Sarandon) é um médica que procura o segredo da juventude e está próxima de descobrir como se pára o relógio do envelhecimento. John procura-a mas ela não acredita nele. Temos nesta cena o primeiro contacto com os efeitos especiais de caracterização. Sentado na sala de espera, John passa dos trinta para os oitenta anos em algumas horas. Sarah percebe que errou e procura ajudá-lo. Mas quando chega à mansão do casal, já o amante de Miriam foi sepultado, como todos os que o precederam. A médica é a escolhida para ser a próxima companhia de Miriam. É aqui que Tony Scott se espalha de forma incompreensível. Sarah deixa-se seduzir por Miriam e a sequência erótica de cenas lésbicas entre as duas (e aqui bem se pode dizer outra vez que se não for por mais nada, o filme vale a pena por isso) têm início com Sarah a sujar a sua t-shirt branca que vestiu sem soutien por baixo. Dá vontade de rir quando temos duas mulheres deste calibre e sabemos que estamos prestes a vê-las envolvidas de modo carnal, e tudo começa com um cliché destes. Quando Sarah diz “Oh, no!”, só faltava mesmo a tradução ser “Com a breca!” para a cena se tornar totalmente risível. O próprio uso que Scott faz dos corpos, de todos eles, desde as vítimas da discoteca gótica, às cenas de sexo entre as actrizes, começam então a ganhar contornos de erótico-chanchada. Mas eis que o realizador volta a acertar no alvo e se justifica de forma brilhante. Com a passagem de Sarah a beber o sangue de Miriam para um bife em sangue. Carne. Não mais do que isso. Apenas Carne.

Não sendo este um filme de vampiros convencional, não deixa de ter pequenas homenagens a clássicos do género, como as sombras projectadas na parede a fazer lembrar Nosferatu ou a incursão pela emblemática cena em que Drácula carrega as suas vítimas nos braços. Tony Scott não se mostra totalmente incompetente, apesar do uso abusivo e enervante do zoom, mas sendo um filme de 1983, não será justo pegar por aí.



Ou melhor, o senão deste realizador parece mesmo ser o facto não ter noção de onde parar. Quando percebe que uma coisa resulta repete-a até à exaustão. Em “The Hunger”, o uso que faz dos reflexos e sombras fica no limite, resulta, mas mais um plano desses e estragava tudo. Exemplo perfeito de saturação são os cigarros. Mas apesar de excessivo, é um recurso estilístico que faz sentido pelo vício, pela necessidade, por ser um vício que mata em contraste com o vício do sangue que oferece a vida eterna, pelo próprio acto sedutor de acender um cigarro a alguém. Mesmo assim, talvez por ser a sua primeira longa-metragem, o realizador consegue ir além do modelo estético convencional que acabou por o caracterizar. A forma como filma a mansão de Miriam e tudo o que a povoa, antiguidades para qualquer mortal, memórias de uma vida secular para ela, é quase poética. Porque nos transmite mais do que vemos, faz-nos sentir os fantasmas almadiçoados que a habitam. Fantasmas que conhecemos realmente no final, em imagens que piscam o olho ao melhor do terror. Novamente, se não for por mais nada o filme vale por essa sequência final.


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Publicado em Maio de 2005