A "BARBIZAÇÃO" DA MULHER
por Ângela Guilherme


Há que assumir uma verdade que pode ferir algumas susceptibilidades: os mamilos existem. Novamente: os mamilos existem. Poderíamos repeti-la vezes sem conta e mesmo assim certamente continuariam a ser camuflados por peças de vestuário ou até apagados por programas de computador. Coloca-se a inevitável questão: Porquê? Porquê esconder o mamilo se já é tão normal o seio ser visto em qualquer decote ou biquini? Porque constitui o mamilo o limiar entre o estar vestido e o fazer topless? De onde veio esta mistificação do mamilo?

Nos MTV Movie Awards, Janet Jackson actuava com Justin Timberlake quando um dos seus mamilos ficou a descoberto e foi visto em directo por milhões de espectadores. A partir daqui, gerou-se uma grande confusão, chegando a usar-se a palavra “escândalo” para a definir. Justin veio pedir desculpas pelo acontecido e Janet mostrou-se ofendida e envergonhada pela exposição mediática do seu mamilo. A questão coloca-se: porquê? Será que a Janet, quando escolheu o seu traje para essa noite, não reparou que o decote que evidenciava os seus seios apenas tapava os seus mamilos? Janet não se importou de ir com os seios praticamente à mostra. Desde que o mamilo estivesse camuflado, ela sentia-se resguardada. A partir do momento em que o mamilo apareceu, ela sentiu-se exposta. Porquê?

No cartaz publicitário do filme “Tomb Rider II”, Angelina Jolie usava um fato cinzento da heroína Lara Croft. O fato era realmente justo ao corpo e os seios de Angelina tinham um destaque especial. Não havia um decote, mas as suas formas femininas estavam bem delineadas pelo fato de lycra. Após a sua divulgação, a actriz veio reivindicar o direito à sua imagem. Angelina afirmou que no dia da sessão fotográfica da qual resultou o referido cartaz ela estava com os mamilos perceptíveis a olho nu através do fato. No cartaz, tal não acontecia. Os seios de Angelina apareciam como uma superfície lisa, adivinhando-se assim a modificação imagética da fotografia original através das tecnologias informáticas. Os responsáveis alegaram que o que os motivou foi a tentativa de fazer parecer Angelina Jolie com a heroína dos jogos de computador Lara Croft. A questão coloca-se novamente: porquê esconder aquilo que é um símbolo natural do feminino para dar uma imagem mais fiel à artificial? Porquê?

As respostas são simples e os culpados fáceis de determinar. A boneca Barbie e a empresa de brinquedos Mattel. Desde os anos 60 que o imaginário feminino mundial é modelado pela imagem da boneca Barbie. A mulher deve ser magra, alta, loura, de cabelos lisos e dentes perfeitos. Deve ter o mesmo namorado há 40 anos e uma série de amigas todas elas morenas e também com corpos esculturais. Deve praticar actividades lúdicas e desportivas, como a ginástica, o ballet ou a equitação. Deve ser eternamente jovem. É esta a mensagem. A mulher deve modelar o seu corpo natural para ficar o mais próximo da imagem artificial da boneca Barbie.

Esta “barbização” da mulher chegou ao cinema e ao mundo da música, onde as actrizes e as cantoras se tornaram ídolos para as massas. Corpos perfeitos, sem marcas, sem estrias, sem celulite, sem pêlos, sem mamilos. É verdade. A Barbie não tem mamilos. Mas a mulher tem e é um símbolo da sua feminilidade. Tal como o seio o é, mas este é mostrado sem problemas. Só quando o mamilo aparece é que a mulher se sente desnuda e exposta.
Se a Barbie tivesse mamilos, como seria? Provavelmente a Lara Croft passaria a ter mais cenas de acção no gelo e dentro de água e dotar-se-iam os mamilos através da roupa. Provavelmente a Janet Jackson vestiria uma camisola transparente através da qual se veria aquilo que chocou o mundo. Provavelmente deixar-se-ia de usar a parte de cima dos biquinis, tendo em conta que eles só tapam mesmo os mamilos.

Há só uma questão que permanece sem resposta, mas para a qual o tempo se encarregará de responder. Existe uma nova Barbie no mercado, a Teen Talk Barbie. Uma adolescente que diz apenas três frases: “Matemática é difícil!”, “Eu adoro ir às compras!” e “Será que teremos algum dia roupas suficientes?”. Traduções aparte, milhões de futuras mulheres têm o seu imaginário a ser invadido por mensagens destas. Será que o futuro é a proliferação de Britney Spears e de Christina Aguileras?



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Publicado em Março de 2005