FALHAS DA BIOLOGIA (Considerações sobre o filme Garganta Funda)
por João Correia


O desvio de Linda, no sentido patológico e não moral, dos padrões da sexualidade mais tradicional revolucionou o cinema e o sexo no cinema. Do género porno-com-argumento, já per si revolucionário, surge como ruptura na indústria cinematográfica: tanto do género como do transporte do mesmo para o mainstream. Até então a pornografia estaria confinada a um “nicho de mercado”, como agora se diz, tendo o filme de Gerard Damiano aberto uma “janela de oportunidade”, como também agora se diz. A repercussão social do filme, foi tão forte à época, que gerou uma onda de contestação, e consequente defesa, bem como a exportação do termo “deep throat” para o escândalo político que forçou a resignação de Richard Nixon. Os ódios e paixões que o filme despertou comportaram o cíclico debate sobre a liberdade de expressão.

De fino recorte técnico, com a apresentação de uma assinalável banda sonora, da autoria do próprio Gerard Damiano, Deep Throat abre novos trilhos que a então crescente indústria da pornografia norte americana percorrerá e que se concretizará e contribuirá para a explosão hedonista e yuppie da década de oitenta. Os planos arriscados levam o fingimento ao limite (sendo que a pornografia é já o extremo do ofício do actor/actriz), tornando claro a todos um género que até então estava reservado salas obscuras das grandes metrópoles.

O argumento, contado em duas linhas não passa disso mesmo, um argumento passível de ser contado em duas linhas. Arriscamos mesmo a possibilidade do autor querer ter transformado uma hilariante hipótese de humor em pornografia “séria”. Uma senhora, que vive, aparentemente, a experiência da quotidiana, não se satisfaz no acto sexual. Em conversa com amigas, e companheiras de andanças orgiásticas, propõem-lhe, após infrutíferas tentativas para a explosão do orgasmo, a consulta a um psiquiatra. Não fora o problema de índole exclusivamente física, talvez a impossibilidade de clímax, residisse na psique da senhora, que se apresentava frágil e diminuída aos olhos da “normalidade” das práticas sexuais. Após várias fracassadas tentativas de júbilo carnal o Dr. Young [Harry Reems] diagnostica-lhe uma inusitada “malformação”: Linda Lovelace não possui o clitóris no lugar onde a biologia o colocou mas na garganta! Daí até ao gozo supremo do orgasmo vai um passo... e vários felatios. Em surpreendentes inserções de planos de sinos em dia de festa na aldeia, de naves espaciais em fulgurante combustão, o realizador metaforiza a alegria reencontrada na vida de Linda Lovelace.

As consequência imediatas desta produção foi o salto para o estrelato dado por Linda Lovelace que em 1980 se tornou activista contra a indústria pornográfica. Esta conversão é precedida pela acusação de que fora violentamente coagida pelo marido a rodar o filme seguida da confissão de que ganhou apenas 1250 dólares neste sucesso hardcore planetário. O “mexer” cinematográfico em assuntos tabu atravessou as fronteiras do tempo e alcandorou Deep Throat à posição de um dos mais vistos e rentáveis filmes de sempre [mais de 600 milhões de dólares], mas, mais importante, tornou-o num objecto de marcante da cultura popular. Popularizando também o sempre ridicularizado felatio.

Deep Throat foi recentemente exibido em Portugal na Cinemateca de Lisboa, arrebatando uma sala repleta de cinéfilos ansiosos pela visão dos mais importantes orgasmos da história da Sétima Arte.


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Publicado em Março de 2005