QUANDO FOR GRANDE QUERO SER ... A PEQUENA SEREIA
por Patricia Cardoso


Eu ainda sou do tempo em que os filmes de animação eram todos dobrados em brasileiro… Quando ainda não nos arriscávamos a ver o Shrek do Mike Myers a falar com sotaque de Viseu… Nos filmes animados da Disney, todas as personagens tinham o mesmo sotaque, aquele que ouvíamos diariamente nas novelas da Globo. Por exemplo, na “Pequena Sereia”, o papai da Arieu era um poderoso tritão que lhe perguntava: “O que é que você quer mais?”.

A primeira vez que vi “A Pequena Sereia” devia ter uns sete ou oito anos e, a partir desse dia, o meu sonho passou a ser aquele cabelo vermelho e ondulado, perfeito e com o volume ideal, impecavelmente penteado apesar de estar sempre submerso… E aquela voz, a voz que lhe foi emprestada por uma tal de Marisa Leal e que canta, a meu ver, a melhor banda sonora de sempre. Nessa altura, com uma inocência que espero ainda não ter perdido totalmente, pensei: “Quando tiver 15, 16 anos vou ser tal e qual a pequena sereia, perfeita, uma Barbie mas com menos ar de burrinha ( sim, mais uma vez, o cabelo), e o meu marido vai ser igual ao príncipe Eric, muito apaixonado por mim, e vai levar-me para um palácio onde se come lagosta (ou seria caranguejo?) todos os dias…”.

Com o passar dos anos, o meu cabelo até já foi vermelho (abençoadas colorações), o volume também se controla no cabeleireiro (à custa de mil e uma espumas…), mas o dito corpinho de sereia, o príncipe de olhos azuis e as lagostas no palácio não chegaram nunca. Ah, e a voz continua de cana rachada. Ainda assim, consegui ultrapassar o trauma e continuo a ver a pequena sereia com o mesmo entusiasmo de há 15 anos atrás, tremo quando a temível bruxa Úrsula aparece, rio-me com as peripécias do Sebastião e com a estupidez das enguias e choro no fim, quando eles se casam. Afinal, para que servem os contos de fadas senão para nos fazer sonhar?



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Publicado em Março de 2005