MAIS VALE A VIDA DA PUTA DO QUE A PUTA DA VIDA

por Joana Linda


A indústria cinematográfica sente, quase desde o seu nascimento, uma estranha atracção pela personagem da prostituta, seja ela a rapariga pobre que o faz por necessidade, como Julia Roberts em Pretty Woman ou Audrey Hepburn em Breakfast at Tiffany’s, ou a senhora da alta sociedade que procura no bordel a satisfação sexual que não encontra no casamento, como Catherine Deneuve em Belle de Jour. Sejam quais forem as suas razões, a personagem da prostituta é sempre romantizada ao exagero, fazendo a profissão mais antiga do mundo parecer um mar de rosas a que qualquer rapariga, em qualquer idade, deve aspirar.

No cinema, as prostitutas nunca são feias ou repugnantes, nunca têm pêlos nas pernas, nas virilhas ou no buço, nunca são gordas, nunca têm celulite, nunca têm o cabelo espigado ou o verniz das unhas lascado, têm sempre as sobrancelhas arranjadas de forma exemplar e passeiam o seu corpo perfeito em roupas desenhadas por costureiros famosos. Para além do rosto perfeito e do corpo escultural, são sempre dotadas de uma personalidade encantadora, algures entre a femme fatale e a lolita, oscilam entre a gargalhada pura e clara de uma criança e os pensamentos profundos sobre o que realmente esperam da vida, deixando o espectador e o galã de serviço completamente desarmados. E por falar em galã de serviço, esse nunca é o homem casado que bate na mulher e nos filhos e depois sai podre de bêbado a caminho de Bragança, não, ele é sempre lindo, meigo, a maior parte das vezes rico, inteligente, sensato, um homem que ainda acredita e procura o verdadeiro amor, mesmo que ainda não saiba disso.

É verdade que há algumas excepções, que o cinema já nos pintou retratos mais reais da prostituição, sim eu também vi o Monster, mas são tão raros que são apenas a excepção à regra, não a conseguindo abolir ou ofuscar. Mesmo quando a história parece ser, em traços largos, mais realista, quando concretizada acaba sempre por seguir, mais coisa menos coisa, o molde acima referido. Em Leaving Las Vegas, Sera é uma prostituta que se apaixona por um alcoólico. À primeira vista parece algo realista, mas se dissermos que Sera é Elizabeth Shue, que nunca esteve tão deslumbrante como neste filme, e que o alcoólico de serviço é Nicholas Cage, o caso muda um pouco de figura.

Mas isto não se aplica apenas ao que se passa dentro do ecrã, a prostituição parece ter o toque de Midas e transformar em ouro tudo o que se atreve a olhá-la de frente. Quando uma actriz representa uma prostituta é quase certo que essa representação lhe valerá, se não um Oscar, pelo menos uma nomeação. Algumas das mais famosas actrizes de todos os tempos conseguiram uma das tão desejadas estatuetas, ao entrarem na pele destas mulheres, Elizabeth Taylor em Butterfield, Jane Fonda em Klute e Kim Basinger em L.A. Confidential. Não se trata sequer de uma imposição dos estúdios, mas sim de uma escolha bastante consciente feita por actrizes que sabem exactamente que papel escolher para subir mais um degrau na grande escadaria do estrelato. Representar uma personagem destas é um risco, é como ser trapezista e trabalhar sem rede, uma actriz ou ganha o reconhecimento do público e dos seus pares, ou então cai redonda no chão sem muitas hipóteses de se levantar, Jodie Foster e Mira Sorvino viram a sua carreira descolar depois de fazerem Taxi Driver e Mighty Aphrodite, respectivamente.

O que é que nos atrai nestas personagens? Talvez algo entre a eterna promessa do conto de fadas e as reminiscências de uma educação religiosa que visa a redenção de todos os nossos pecados. A prostituta desafia todas as convenções sociais e religiosas, apresenta-se aos nossos olhos como alguém de quem já não se espera nada e é por isso mesmo que tudo o que ela faz surpreende. Ela quebra a pesada maldição da monogamia e é recompensada com o verdadeiro amor. Para os homens na plateia, ela é a mulher perfeita, a que podem salvar das garras da decadência, assumindo assim o papel de super-heróis com que sonham desde a infância. Para as mulheres, ela é o protótipo moderno da Cinderela, a que tem tudo para ter um final infeliz mas que, como por magia, acaba por conseguir aquilo com que todas as outras sonham. É também um símbolo de libertação sexual, a mulher que é dona do seu próprio destino e do seu próprio corpo, sentindo-se no direito de fazer com ele o que bem entende, até mesmo vendê-lo.

No fundo, é um conto de fadas em que a rapariga pobre, cujas funções são normalmente cozinhar e limpar a casa dos outros, é substituída pela prostituta. Já não é o grau de pobreza que conta, não é uma distinção social, mas sim uma distinção moral, o reflexo de uma sociedade onde escasseiam os valores morais e familiares, ou talvez não. Pelos vistos, continuamos a acreditar no amor e numa segunda oportunidade de alcançar a vida com que sempre sonhámos, uma vida independente do nosso passado e que nos encontra como que por magia. Na idade adulta, as prostitutas no cinema vendem-nos os sonhos que nos vendiam os livros de príncipes e princesas na infância. Fingimos que crescemos, que a vida nos desfez as ilusões, mas não, apenas mudámos os personagens, o guarda-roupa e os cenários, a história essa, continua a ser a mesma e ainda bem que assim é.





Publicado em Março de 2005