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PÁGINA EM BRANCO: O MONSTRO ATACA DE NOVO!
(ou Quando for grande quero ser o Charlie Kaufman)

por Helena Correia


“To begin... To begin... How to start? I'm hungry. I should get coffee. Coffee would help me think. Maybe I should write something first, then reward myself with coffee. Coffee and a muffin. So I need to establish the themes. Maybe a banana nut. That's a good muffin.” – Charlie Kaufman (Adaptation)

Estou à frente desta página há dois dias (bem, não seguidos…também parei para comer umas bolachas) e só agora comecei a escrever. Escrevi e voltei a escrever o título tantas vezes que perdi a conta. Mudei o tipo de letra, o tamanho, centrei, alinhei à direita, justifiquei, levantei-me e fui até à cozinha, voltei, configurei a página, 3 cm em cima, 2 cm à esquerda e à direita, fui até à sala ver os Simpsons, voltei, bold, itálico, tirei o itálico, fui dormir.

O texto já devia ter sido entregue, mas as palavras não saem. Só usamos 10% das nossas capacidades cerebrais, mas há dias que sinto que nem 1% consigo usar. Os sintomas são estes, o diagnóstico: bloqueio de “escritor” (entre “” para não ofender os escritores) ou writer’s block que até é mais giro. O terror da página em branco já afectou meio mundo (porque o outro meio nem costuma escrever, talvez só a lista das compras) e quando há prazos a cumprir então é que as gotas de suor começam a correr pela testa e o coração bate mas rápido. Sinto sempre que estou a fazer uma figura ridícula quando estou a tentar escrever qualquer coisa fantástica e só sai uma coisa do género “roses are red, violets are blue”, como o Norther Winslow (Steve Buscemi) de Big Fish que está há mais de 10 anos a tentar escrever um poema, o poema perfeito.

Adaptation, de Spike Jonze e argumento de Charlie Kaufman (adaptado de um livro de Susan Orlean) é sobre isto mesmo, o terror da página em branco. Charlie Kaufman estava com algumas dificuldades em adaptar o livro da escritora Susan Orlean, “The Orchid Thief”, e com os prazos a terminar e as tais gotas de suor já a cair da testa e aquele nó no estômago decide fazer isso mesmo, uma história sobre o argumentista Charlie Kaufman (Nicolas Cage) a tentar adaptar o livro de Orlean (Meryl Streep). Charlie Kaufman (o argumentista, não o personagem…ou eles são a mesma pessoa?), quando entregou o guião aos produtores pensou “a minha carreira está acabada, nunca mais volto a escrever um filme na vida”. Enganou-se. Os produtores adoraram, a Susan Orlean adorou. Aquilo que parecia suicídio deu-nos (a nós, o publico) ainda mais certezas de que Charlie Kaufman é genial.

Quando vi Eternal Sunshine of the Spotless Mind pensei se Kaufman também teria tido dificuldades em escrever o guião. Imaginei-o sentado em frente à máquina de escrever (estou a inventar, mas prefiro imaginá-lo com uma máquina de escrever porque o ruído das teclas é mais agradável de imaginar) e as palavras a fluir, o número de páginas escritas a aumentar, sem que ele desse conta. Talvez parasse um minuto ou dois para beber um café, mas seria obrigado a regressar rapidamente à máquina de escrever. Os dedos saltam rapidamente entre uma letra e outra tal a velocidade das ideias. Quando se apercebeu, a história estava feita.

Não voltou a ler a história depois de escrita. Pensou “fica imperfeita, como a relação do Joel e da Clementine, imperfeita como todas as relações”.

Não deve ter sido bem assim, mas a história do filme é tão real, tão verdadeira (mesmo com todos aqueles aparelhos-apaga-memórias) que só pode ter saído assim, de uma vez só, sem voltar atrás para corrigir.

P.S. Querido Pai Natal, estás a ver o Charlie Kaufman? Também quero escrever assim. Obrigada.


 

 


Publicado em Novembro de 2005