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BRUNO FERREIRA - A VOZ DE WALLACE
por Joana Linda


Bruno Ferreira é a voz humana por trás de muitos bonecos que conhecemos da televisão e do cinema. Director de vozes do programa Contra-Informação há já 4 anos, é ele que dá a voz a personagens tão conhecidas como Xanana Gusmão ou Paulo Tortas. Mas o percurso de Bruno começou muito antes disto, durante os anos 90 numa rádio local em Beja. Mudou-se depois para Lisboa onde tirou o curso de Relações públicas e publicidade, tendo-se dedicado durante esses 4 anos inteiramente aos estudos.

Já no final dos anos 90, começou a gravar anúncios de rádio e televisão, por ter sido o mais próximo da rádio que conseguiu arranjar. Em 98, entrou então para o Contra-Informação onde trabalha até hoje. Da experiência de imitar as mais mediáticas personalidades do nosso país, relembra alguns acontecimentos engraçados, principalmente a vez em que, para um programa da TVI, ajudou a fazer uma surpresa a Xanana Gusmão entrevistando-o com a sua própria voz. O líder timorense, que já tinha sido presenteado no seu aniversário com uma cassete do Contra onde aparecia a sua personagem, começou a rir e não parou mais, impossibilitando mesmo a continuação da entrevista.

Embora tenha feito até hoje maioritariamente trabalho de estúdio de som, procura também fazer outro tipo de trabalhos como actor. Passou por diversos programas, desde galas do Pirilampo Mágico ao concurso 1 2 3, onde esteve o ano passado enquanto actor residente, tem participado em diversas galas e também em espectáculos para empresas onde recorre à sua capacidade de facilmente fazer imitações de vozes conhecidas. Para além da voz, Bruno tem vontade de emprestar também o seu corpo e expressão às personagens. Não vê nenhuma barreira entre um trabalho exclusivo de voz e um trabalho de imagem, e diz estar disponível a participar noutros projectos, desde que sejam interessantes, como aliás tem vindo a acontecer.

Há cerca de 5 anos atrás, Bruno começou a fazer dobragens de cinema de animação. Entrou em filmes como Harry Potter, Shrek ou Valiant, os Bravos do Pombal, onde fez diversas personagens, mas foi na ante-estreia de Wallace & Gromit que o encontrámos e que o convidámos a dar-nos esta entrevista. Ficámos então a saber como funcionam estas coisas das dobragens dos filmes de animação dos grandes estúdios.

O processo de selecção das vozes que dobrarão em cada país um determinado filme de animação não é simples. Numa primeira fase, os actores são convidados pelo director de dobragens, neste caso uma directora, Cláudia Cadima, a fazer um casting. Essas gravações são depois enviadas para os Estados Unidos onde o director de dobragem de cada país e os responsáveis dos estúdios onde foi produzido o filme, neste caso a Dreamworks, chegam a um consenso e escolhem então os actores que interpretarão as diferentes personagens. A voz de Bruno Ferreira passou por todas estas formalidades e foi escolhida como a voz portuguesa de Wallace, a personagem principal do filme.

Ser a voz de um personagem tão mítico como Wallace era uma responsabilidade enorme e apesar de haver sempre uma limitação neste tipo de trabalhos, - No contra-informação, à semelhança do que acontece quando se faz um filme de animação de raiz, as vozes são gravadas em primeiro lugar e a animação vem depois. Neste caso o processo é o inverso, a voz tem que se ajustar a um trabalho que já foi feito, neste caso pelo actor inglês Peter Sallis - Bruno tentou, sem fugir à personalidade do próprio personagem, acrescentar-lhe algo de seu, da sua interpretação.

Não se assume, como o Wallace, uma dog person, já teve gatos, agora tem cães e gosta de todos, sem preferências. O mesmo não se pode dizer dos filmes aos quais Wallace & Gromit, A Maldição do Coelhomen, presta vassalagem. São inúmeras as referências aos filmes de terror em Wallace & Gromit, um género dentro do qual Bruno dá preferência aos clássicos mas de que não é grande apreciador. Considera que é muito difícil fazer um bom filme de terror e para gostar de um ele tem de ser mesmo bom. O seu realizador preferido é Stanley Kubrik, se tivesse de escolher um actor escolheria Robert DeNiro e na lista dos seus filmes preferidos encontramos Casablanca,a primeira escolha, A Residência Espanhola, O Leão da Estrela porque é do Sporting e porque é um grande trabalho do António Silva, Man on the Moon e Eyes Wide Shut.

Não é só no grande ecrã que Bruno tem feito dobragens, na televisão já ouvimos em séries como Peanuts, na RTP2, ou Sonic, na SIC. Neste momento está a gravar os Flinstones, onde faz a voz de Barney, o vizinho de Fred Flinstone. A ligação que as crianças criam com as vozes das personagens é uma coisa que o alegra e surpreende bastante. Uma vez, numa participação num programa de televisão onde havia também crianças, um miúdo, só de o ouvir falar, foi ter com ele e disse que o conhecia mas não sabia de onde. Depois de terem chegado à conclusão de que era impossível conhecerem-se porque nem sequer viviam na mesma cidade, o miúdo lá conseguiu identificar de onde conhecia o Bruno, dos desenhos animados do Sonic onde ele tinha dado a voz a uma das personagens - As crianças têm uma relação muito forte com as personagens dos desenhos animados de que gostam e quando se muda de voz de um personagem de uma série para outra as crianças notam o que é extremamente gratificante porque é prova de que eles reparam no nosso trabalho.

Homem dos sete ofícios, Bruno tem também, juntamente com blabla e blabla, uma empresa de guionismo chamada Crianeo, que escreve, entre outras coisas, o Disney Kids para a Sic e os Apanhados à Queima-Roupa para a TVI. A Crianeo estreou recentemente um programa de humor nas manhãs da Rádio Renascença chamado Memória de Elefante, que tem a voz do Bruno mas é escrito pelos três.

Embora já tivesse participado em vários filmes de animação, Wallace marca a sua primeira personagem principal numa produção desta dimensão. Ficou muito contente por ter sido escolhido, até porque tinha adorado A Fuga das Galinhas, e ficou ainda mais contente com o resultado final. Sentiu-se parte daquele todo e gostou mesmo muito do filme.

A qualidade das animações criadas por Steve Box e Nick Park é realmente assombrosa e é bom também saber que quando os mais pequenos exigem ir ver a versão portuguesa de um filme já não precisamos de revirar os olhos e maldizer a nossa sorte três vezes porque o que por cá se faz já é muito bom e o Wallace, não sendo o único, é também exemplo disso.



LER CRÍTICA por Helena Correia

 

 

Publicado em Novembro de 2005