FRAGMENTOS DE UMA INFÂNCIA
FELIZ
por Gabriela Ferreira
À minha mãe e à minha
irmã
(dedicar uma crónica à família
num número dedicado ao terror é
uma coisa muita bonita!)
Eu ainda sou do tempo em que se via televisão em família, ao serão, depois de jantar. Não me lembro de ter uma hora certa para ir dormir, mas de certeza que a tinha. Também não me lembro de fazer birras porque queria ficar acordada mais tempo, mas quase de certeza que as fiz. As recordações que guardo dos serões televisivos em família - além dos Jogos sem Fronteiras - são imagens e sons do que era para mim, nessa altura, o terror. Cá em casa não se perdia um único episódio de Twin Peaks nem do Hitchcock Apresenta. Não sei se era a mente aberta da minha mãe que definia que não havia qualquer mal em a benjamim da família - eu, portanto - ver estas séries, se era eu que fazia birra. Provavelmente, era a segunda opção. Quase que aposto que devia dizer algo como "Se ela pode ver, porque é que eu não posso?". Esta "ela" é a minha irmã mais velha. Sete anos de diferença obrigavam-me a reclamar direitos de igualdade em tudo. Tudo o que ela fizesse, eu também queria fazer! Nunca percebi que sete anos era uma diferença considerável.
Por esta razão, quando a minha irmã tinha 14 anos e eu 7 - mais coisa, menos coisa - estava ela na idade de ver os filmes de terror porque era giro. Mas, claro, também não os queria ver sozinha e lá fazia o favor de me deixar ver também. Acredito que mais uma vez eu tenha feito alguma espécie de birra. Tínhamos um clube de vídeo ao cimo da rua e por isso era normal vermos filmes à tarde. Lembro-me de uma coisa muito estúpida passada num pântano, de esconder a cara quando aparecia o monstro e de repetir muitas vezes em pensamento "é só um boneco, é só um boneco"! Lembro-me de outro filme, acho que de vampiros, em que as pessoas morriam com uma marca de uma serpente no peito. E lembro-me do Exorcista, desse nunca mais me esqueci. Film Stills é uma secção que este mês não me passou pelas mãos e que nem sequer vou abrir. Aqui queria escrever algo como "Durante anos tive pesadelos com a menina do filme (nome da actriz)" mas o raio da miúda e do seu vómito verde deram-me tantos pesadelos que não sei o nome dela de cor e nem sequer vou ver ao imdb.
O serão mais inesquecível de todos foi quando a RTP passou o Monstro da Lagoa Negra! Ainda estava eu a recuperar do choque de afinal não ser filha dos meus pais e de ter sido encontrada num caixote do lixo (sim, a minha irmã dizia isto e eu acreditei durante algum tempo), quando pergunto porque é que tínhamos de usar óculos para ver o filme. A resposta: tem cuidado, se usares os óculos o monstro sai do ecrã e vem ter contigo! Usei os óculos, ele não veio e eu acabei por adormecer durante o filme.
O pesadelo mais antigo de que tenho memória - tirando o recorrente em que era atropelada a caminho da escola, sempre por um camião, e em vez de ficar na estrada, era engolida pelo motor e ficava lá a andar às voltas - foi com o Alien. Filme de culto cá em casa, via-se até à exaustão! A primeira vez que vi sonhei com os ovos dos extraterrestres e aquela nhanha toda que eles deitavam, acordei a minha mãe a meio da noite, e dormi na cama dela!
Mas o que me tirava mesmo do sério não eram filmes, eram videoclipes! Principalmente o Thriller do Michael Jackson - uma vez desatei numa gritaria quando entrei na sala e estava a dar na televisão - e o Lullaby dos The Cure! Robert, tu desculpa, mas quando eu tinha 5 ou 6 anitos tu eras o homem mais assustador do mundo!
Obviamente, não me posso esquecer da incrível história do bisavô do meu pai! Sim, na minha família existiu um lobisomem. Não o conheci, mas a minha mãe contava-me que era um homem assustador, demasiado soturno, sempre calado. Tinha os ossos das mãos deformadas, pareciam patas e era muito peludo. Na aldeia todos lhe conheciam o sinistro comportamento de desaparecer nas noites de lua cheia e ser encontrado na manhã seguinte, a dormir na mata, com as roupas rasgadas. Bem, o pormenor das roupas rasgadas não tenho a certeza se é verídico, posso ter sido eu a acrescentá-lo para tornar a coisa mais real. Mas é assim que recordo esta história.
Lembro-me ainda das séries de televisão que falavam de acontecimentos macabros. Houve uma muito boa que dedicou um episódio à história de D. Pedro e D. Inês de Castro e fez uma reconstituição com as pessoas vestidas à época, a beijar o anel da rainha, um esqueleto de manto e coroa sentado num trono. Os episódios que gostava menos eram aqueles que falavam de múmias. E lembro-me também do jornal "Notícias do Mundo".
Graças aos valores de solidariedade e respeito pelos outros que a minha mãe me passou, nunca tive medo do Frankenstein. Sempre achei a história dele muito triste e as pessoas muito cruéis! O pior é que depois queria respeitar toda a gente, o lobo mau do Capuchinho Vermelho não era mau, tinha fome por isso é que comeu a Avozinha! A bruxa da Rapunzel também estava no seu direito quando enganou o príncipe, ele invadiu uma propriedade privada!
Uns anos mais tarde veio a fase em que comecei a gostar de algumas coisas de terror. Por causa do Exorcista ganhei alergia a tudo o que meta possessões e admito que o Michael Jackson também ainda me mete algum medo. Mas lembro-me de uma tarde ter passado na televisão o The Fearless Vampire Killers do Roman Polanski - sabia lá eu o que era isto - e desde aí passei a gostar de vampiros. Ok, o Patrácula e o Conde de Contarrr da Rua Sésamo também ajudaram! E graças ao Johnny Depp passei a gostar do Freddy Krueger. Ou melhor, graças à morte dele. Algo naquela cena, acho que o jacto de sangue, me fez adorar o filme.
Outra
coisa que desde sempre me mete alguma
confusão é a imagem dos extraterrestres
cinzentos de olhos semi-esbugalhados.
Um amigo meu - seguidor convicto dos Ficheiros
Secretos - explicou-me um dia a razão
deste desconforto. Eu já fui raptada por
eles e tenho um chip na nuca. Esse chip
faz com que eu não goste da imagem deles.
Assim, é-me impossível relembrar o rapto
e denunciá-los à humanidade. Disse-lhe
que não tenho cicatrizes nem marcas na
nuca e ele diz que é normal, os extraterrestres
são muito bons nessas coisas. E isto explica
muito coisa…
Publicado em Outubro de 2005