O TERROR QUE VEIO DA ÁSIA
por Helena Correia
O fascínio pelo Cinema de terror
asiático é um fenómeno
recente e atingiu o seu ponto alto no
final dos anos 90, altura em que também
os norte-americanos prestaram mais atenção
ao que se passava do outro lado do mundo
e chegaram à conclusão que
ali estava uma fórmula a aproveitar.
Nos anos 90, o cinema norte-americano
de terror começou a virar-se demasiado
para o publico jovem com filmes como “Scream”,
“I Know What You Did Last Summer”, remakes
de filmes mais antigos, como “Texas Chainsaw
Massacre”, e sequelas tardias de “Halloween”
e “Friday the 13th”. Todos estes filmes
têm uma coisa em comum: adolescentes.
Adolescentes com as hormonas aos saltos,
que se divertem a matar os amigos, a visitar
casas isoladas em cidades que nem existem
no mapa e, claro, adolescentes que morrem
de maneiras idiotas porque foram sozinhos
verificar que barulho é aquele
que vem da cave abandonada há 50
anos e onde uma família inteira
foi chacinada.
E se achei “Scream” um filme engraçado
e interessante, com aquelas referências
todas a filmes de terror clássicos,
todos os outros que se seguiram pareceram-me
apenas uma repetição do
mesmo. Uma fórmula gasta, portanto.
No final dos anos 90 começam a
surgir uns filmes interessantes, vindos
da Ásia. Filmes onde o espectador
não adivinha o final no primeiro
minuto e, mais importante, filmes que
aguentamos ver mais do que um minuto.
A nova vaga de terror asiático
fez com que muitos voltassem a acreditar
que fazer bons filmes de terror ainda
era possível.
Estes filmes trazem-nos algumas novidades,
tanto a nível da fotografia e dos
ambientes, como do modo como a historia
se desenrola, os temas escolhidos e a
relação entre os personagens.
Ao contrário do cinema de terror
ocidental onde tudo o que é mau
acontece sempre à noite, no escuro,
aqui o Mal está sempre presente,
mesmo debaixo do Sol mais brilhante. A
utilização das novas tecnologias
é uma constante e não é
raro vermos televisões, telemóveis
e cassetes de vídeo assombradas.
É uma boa maneira de incomodar
o espectador, visto que são objectos
que fazem naturalmente parte do nosso
dia-a-dia, mas aos quais nunca prestamos
grande atenção. Será
também uma boa maneira de nos avisar
que devíamos dar mais atenção
ao contacto entre as pessoas e que o modo
como comunicamos hoje em dia está
“amaldiçoado”? A relação
entre personagens é então
algo que incomoda nestes filmes. É
difícil perceber qualquer tipo
de emoção nos olhares, gestos
e até falas dos personagens. Até
compreendo, é uma cultura diferente,
onde o toque entre as pessoas, por exemplo,
praticamente não existe. Enquanto
nós estamos habituados a abraçar
e beijar amigos, família e até
pessoas que acabámos de conhecer,
a cultura asiática quase que promove
o afastamento entre as pessoas, ou pelo
menos é assim que fazem transparecer
nos filmes, principalmente nos de terror.
Também a questão da religião
é importante mencionar, visto que
nos filmes de terror ocidentais é
algo que está sempre presente e
nos asiáticos muito raramente é
mencionado e quando o é, não
tem grande relevância para a história.
“Ringu” (1998, Japão) foi dos primeiros
a despertar a atenção ocidental.
Uma jovem jornalista divorciada que vive
com o filho pequeno, descobre que a sua
sobrinha morreu na mesma noite que outros
três amigos e que sete dias antes
todos tinham visto a mesma misteriosa
cassete de vídeo. Reiko, a jornalista,
decide investigar e o que descobre leva-a
a uma estranha criança, Sadako
(a Samara do remake). Este filme teve
(e continua a ter) bastante sucesso, com
direito a sequelas, prequela, dois remakes
americanos e um coreano. O filme aposta
bastante nos ambientes sombrios, nos efeitos
sonoros (que são sempre fantásticos
no cinema de terror asiático) e,
principalmente, no aspecto físico
da menina, a Sadako. Aspecto esse que
mistura uma certa fragilidade com o facto
de a cara estar quase sempre coberta com
longos cabelos pretos, como que escondendo
qualquer coisa de terrível. A questão
dos cabelos compridos e pretos é
curiosa, porque surge em bastantes filmes
do género e, se alguém souber
a razão, porque é que os
cabelos pretos e longos são tão
frequentemente usados nestes filmes, é
favor enviar-me um e-mail!
Em 2000 surge “Ju-On” (mais conhecido
como “The Grudge”), que também
teve direito a remake americano com Sarah
Michelle “Buffy” Guellar. O remake é
bastante parecido com o original, principalmente
em relação a cenários
e ambientes, o que até se compreende
visto que os americanos acharam que para
preservar a qualidade do original o melhor
seria chamar o mesmo realizador, Takashi
Shimizu. Tanto o original como o remake
mantêm o aspecto mais assustador
da história, o miúdo Toshio,
que pode facilmente rivalizar com a Regan
do “Exorcista” como a criança mais
assustadora da história do cinema.
“The Eye” (2002) até agora não
tem versão americana, mas clara
que nos EUA ninguém dorme e já
está em fase de produção
o remake e parece que é a Renée
Zellweger a protagonista de serviço.
Quanto ao original, teve bastante sucesso
no nosso país e o facto de não
ser falado em inglês não
parece ter afastado os portugueses deste
filme de Oxide Pang Chun e Danny Pang.
É um filme interessante, com cenas
bastante assustadoras, principalmente
aquela do elevador (para quem já
viu), que é de arrepiar.
“A Tale of Two Sisters” (2003, Coreia)
ganhou o Grande Prémio do Fantasporto
em 2004 e é uma adaptação
de um conto tradicional coreano, que conta
a história de duas irmãs,
Janghwa (“rosa”) e Hongryeon (“lótus
vermelho”). Neste filme as duas irmãs
são Su-mi e Su-yeon, que viajam
para a casa de campo do pai, mas a contrastar
com a beleza do local está a relação,
que vai piorando ao longo do filme, entre
as irmãs e a madrasta. O filme
começa num hospital psiquiátrico
onde o médico pede a uma jovem
que lhe conte o que aconteceu. Assistimos
então ao desenrolar da história
que nos leva até ao “que aconteceu”.
E o que aconteceu pode não ser
tão linear nem tão óbvio
como poderíamos pensar. “A Tale
of The Sisters” prega-nos rasteiras constantemente
e quando pensamos que temos a certeza
do que é que se passou realmente
naquela casa, o realizador puxa-nos o
tapete. Confesso, sou grande fã
deste filme. Vi-o na primeira e única
vez que fui ao Fantasporto (e ainda dizem
que tudo o que é bom acontece em
Lisboa) e vi-o porque simplesmente achei
o cartaz do filme apelativo. Não
me arrependi. Quer dizer, mais ou menos,
porque dormir numa cidade e numa cama
estranhas não é muito agradável
depois de ver um filme assim.
Para quem nunca viu um filme de terror
vindo da Ásia é favor apressar-se,
porque não sabe realmente o que
anda a perder.
Publicado em Outubro de 2005