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BETWEEN DARKNESS AND LIGHT
por Joana Linda


Desde que me lembro que gosto de filmes de terror, de histórias fantásticas, de locais lúgubres e cinzentos, de paisagens românticas e desoladoras, de canções tristes, de dias de chuva. Desde que me lembro que olho para todas estas coisas como para um cobertor ou uma chávena de chá numa tarde fria de Inverno. Gosto do susto, do calafrio, da tensão e, ainda mais que isso, gosto da luz, da luz que invade e se sobrepõe invariavelmente às trevas, da luz que invade o ecrã mesmo antes do final, do coração que volta ao seu ritmo normal, da restituição do equilíbrio.

Acredito que a vida seja como um baloiço, um eterno balanço entre a luz e a escuridão, entre o sol e não a chuva mas a sombra que provoca, entre a queda e a ressurreição, e que nenhuma felicidade é plena, nenhuma tempestade dura para sempre. Não acredito que o espaço entre cada um de nós seja apenas isso, espaço invisível, transparente, incolor, inodoro, já há muito que me rendi à máxima de Hamlet: “There are more things in heaven and earth, Horatio, / Than are dreamt of in your philosophy.”, seja lá isso ou sejam lá eles o que forem.

O senhor do meu clube de vídeo sabe exactamente quando a vida me está a correr mal, não é quando começo a alugar comédias românticas umas atrás das outras, não, é quando começo a alugar filmes de terror, histórias fantásticas e sobrenaturais, universos de sonho ou pesadelo. A minha imaginação tem as cores sombrias dos filmes de Tim Burton, tem mulheres pálidas de cabelos longos com marcas estranhas no pescoço e uma beleza sobrenatural, tem mansões abandonadas meio comidas pelas ervas daninhas e pelo tempo, tem homens estranhos de cabelos escuros e olhos de quem viu o mundo nascer, tem sons de passos estranhos no corredor e cortinados brancos que esvoaçam quando não corre uma brisa lá fora.

O meu mundo não é isento de tristeza ou de morte, o meu mundo é real, mais real do que os das pessoas que só vêm filmes baseados em histórias verídicas. Se há filmes que ensinam a natureza da vida são estes em que o cinza substitui o rosa e algures, ao longe, se ouvem as asas de um anjo a bater, não um querubim, não um anjo de caracóis loiros e braços rechonchudos, mas um anjo igual a mim, igual a ti, um anjo de cabelo revolto, um anjo mais parecido com um demónio. É aqui onde tudo se cruza, onde todos se misturam, onde a virtude se despe e o pecado se engole como um rebuçado. É assim o mundo, difuso, estranho, enublado.

Durante anos me debati com a necessidade de explicar isto às outras pessoas, às que não gostam de filme de terror, às que nos acham estranhos, sádicos ou simplesmente semi-góticos/semi-psicopatas, por gostarmos destas coisas. A realidade não podia ser mais distante de todas estas ideias preconcebidas. Esse meu problema acabou quando vi o filme Quills. É certo que não é um filme de terror e é certo também que não era de cenas sangrentas de que se falava, mas a resposta de Madeleine LeClerc, a personagem interpretada por Kate Winslet, ao padre, interpretado por esse ser sobrenatural que é o Joaquin Phoenix, quando ele lhe pergunta qual a razão para uma rapariga como ela ajudar o Marquês de Sade e gostar de ler as indecências que ele escreve, para mim foi como uma epifania e desde então nunca mais deixei de a citar.

If I wasn't such a bad woman on the page, I couldn't be such a good woman in life.









Publicado em Outubro de 2005