PELO AMOR DE MR. DARCY:
Os estéreotipos masculinos em Bridget
Jones
por Joana Linda
Introdução:
Bridget Jones a 40 000 pés de altitude
Fazer
25 anos a bordo de um avião é
coisa estranha. Oito horas fechada dentro
de um tubo de metal com asas num dia assim
é, podem confiar, quase fatal.
Entre as refeições ligeiras,
as caras desconhecidas, as pastilhas elásticas,
os livros e os leitores de CD, a vida
agarra-se a nós como se não
tivesse pára-quedas e a súbita
proximidade desse deserto azul polvilhado
aqui e ali de branco que é o céu,
funciona como uma espécie de zona
neutra onde é possível julgar
os mais relevantes eventos da nossa vida
de forma isenta e justa.
A
vida é, no geral, cruel e coloca-nos
sempre à baliza na altura exacta
em que a defesa se desmorona e um avançado
corre na nossa direcção
já de pé afiado para aquilo
que será um remate certeiro, um
olho negro e uma cara inchada em forma
de bolacha. É por isso mesmo que
há alturas nas nossas vidas em
que até mesmo nós, que sempre
nos posicionámos à margem
do fenómeno Bridget Jones, nos
rendemos e nos enrolamos na mantinha e
almofada fornecidas pela companhia aérea,
a olhar para aquele ecrã pequenino
onde uma solteirona de 33 anos nos lembra
que os bois são todos iguais apenas
lhes damos nomes diferentes. Para uma
aniversariante na fase "abaixo o
amor" e sem ideias para a crónica
deste mês, não podia haver
filme mais certeiro.

Daniel Cleaver: um refém
da sua própria adolescência
No
universo Bridget, onde as mulheres de
rabo grande e barriga proeminente teimam
em usar mini-saias, dois homens completamente
diferentes habitam o seu diário
como se a vida fosse uma festa e entre
os dois maravilhosos vestidos que temos
no armário, só pudéssemos
escolher um para usar. Nunca uma personagem
foi uma personificação mais
perfeita dos ditados: "Cada tiro
/ Cada Melro", "Cada cavadela
/ Cada Minhoca" como Bridget e o
seu sucesso reside exactamente aí,
na falha, na humilhação,
nos quilos a mais, na escolha errada,
no insucesso, em suma, naquilo que a torna
humana e real e tão parecida com
a grande maioria das mulheres deste planeta.
Se
aprendemos alguma coisa com Bridget é
que, em caso de dúvida, devemos
fazer sempre o oposto daquilo que nos
passa pela cabeça, principalmente
no que aos homens diz respeito. (Caros
homens, tenho a certeza que esta lei também
se aplica às mulheres, é
que o coração é um
órgão estranho que trabalha
(quase) sempre ao contrário dos
ponteiros do relógio.) Ora vejamos,
quando conhecemos Bridget, o seu diário
é preenchido quase na totalidade
pelas suas fantasias com o patrão,
um playboyzinho bem apessoado que come
cachos de mulheres ao pequeno-almoço
e depois cospe os caroços da janela
do carro a caminho da próxima colheita.
Esse homem é Daniel Cleaver, interpretado
por Hugh Grant, rico, bonito, sedutor,
o vulgar “ele sabe-a toda”. Se isto fosse
o BBC vida selvagem, neste momento eu
estaria escondida atrás de um arbusto
e a sussurrar para a câmara: “Bicho
muito perigoso, aproxima-se como quem
não quer a coisa, mente, seduz,
atraiçoa e desaparece antes mesmo
que a presa se aperceba do que está
a acontecer. Tenham medo, tenham muito
medo. Se se cruzarem com um destes no
vosso caminho, o essencial é não
o olhar nos olhos e deixar crescer o buço
para que ele se desinteresse e rapidamente
procure uma nova presa.”
O
erro mais comum perante um espécimen
destes é achar que ele vai mudar
por nossa causa, que nós somos
a mulher da vida dele e que ele se vai
dedicar a nós de corpo e alma e
perder todo o interesse pelas outras mulheres.
Isto NUNCA acontece na vida real, acontece
por vezes nos filmes para adolescentes
americanos, mais nada, e vulgarmente envolve
uma aposta e um baile de finalistas, o
que quer dizer que nesses filmes esses
homens têm mais ou menos 18 anos.
Os homens têm um prazo de validade
que habitualmente acaba por volta dos
20, é apanhá-los antes disso
ou então não vale a pena,
não há redenção
possível, depois disso já
vão levar com os vícios
da vida de solteiro, com as ex ou actuais
namoradas, os ex ou actuais amores da
vida deles, e em alguns casos até
mesmo com as ex ou actuais esposas, ou
seja, uma data de ex-qualquer-coisa que
são muito mais actuais do que deveriam.
Isto tudo para dizer que a redenção
não é possível, não
acreditem na carochinha, fujam enquanto
podem. Em linguagem cinematográfica:
Run for your lives!
A
bridget poderia ter aprendido isto no
primeiro filme mas não, caiu que
nem uma patinha no segundo, quando o senhor
Cleaver volta com uma conversa do arco-da-velha,
a dizer que desistiu das mulheres, que
agora é celibatário e que
nunca conseguiu deixar de pensar nela.
Chateada com o ex-namorado, esse sim o
homem da vida dela, a desgraçada
cai na canção do bandido,
muito semelhante à canção
das sereias que desviava os marinheiros
do seu rumo apenas para os atirar contra
as rochas.

Mark Darcy: um homem demasiado
perfeito para ser real
Em
1995, a BBC lançava a mini-série
Pride and Prejudice, adaptada do romance
homónimo de Jane Austen, sem sequer
sonhar que estava a criar não só
um novo sex-symbol como também
uma personagem mítica que haveria
de se cruzar novamente com a literatura
e o cinema. O enorme sucesso que esta
série teve no Reino Unido ficou
a dever-se, em grande parte, à
interpretação de Mr. Darcy
por Colin Firth. Se toda a produção
e actores que estiveram envolvidos nesta
série viram os seus talentos reconhecidos,
foi Mr. Darcy que se tornou uma lenda
e que colocou a cena em que sai da água
com uma camisa branca molhada no top das
cenas mais vistas da BBC. Dizem que, ao
ver esta produção de Pride
and Prejudice, todas as mulheres da Grã-Bretanha
se apaixonaram por Mr. Darcy e Helen Fielding,
a autora de Bridget Jones, não
foi excepção.
Quando
começou a escrever o Diário
de Bridget Jones, Fielding criou a personagem
de Mark Darcy pensando na personagem de
Jane Austen e mais concretamente na interpretação
de Colin Firth. O nome Darcy era claramente
um piscar de olhos à série
e a descrição física
da personagem correspondia demasiado à
fisionomia de Colin para passar despercebida.
Se Colin Firth já perdera para
o grande público a sua própria
identidade e passara a ser conhecido como
Mr. Darcy, depois de aceitar o papel de
Mark em Bridget Jones ficou claro que
nunca mais se livraria do estigma dessa
personagem que parece ser o protótipo
do homem perfeito:
“I'm
fully aware, that if I were to change
professions tomorrow, become an astronaut
and be the first man to land on Mars,
the headlines in the newspapers would
read: Mr. Darcy Lands On Mars. No matter
what else I do, this tag will stay with
me.”
Mas
o que é que torna Mark Darcy tão
perfeito? Ele é o que eu chamo
o galã encoberto, ou seja, o homem
que, como não dá nas vistas
como Daniel Cleaver, nunca é a
primeira opção, é
sim o homem que sempre esteve ali à
mão mas que só reparamos
quando percebemos os sacanas que são
os outros todos e o erro que temos estado
a cometer. De repente, o homem que veríamos
apenas como amigo tem uma hipótese
e revela-se como sendo, afinal, tudo aquilo
que andávamos à procura.
O
único defeito apontado a Mr. Darcy
por Bridget é o mesmo que já
lhe tinha sido apontado por Jane Austen,
o orgulho e a arrogância. O título
Pride and Prejudice refere-se aliás
às primeiras impressões
que Darcy e Lizzy tiveram um do outro.
No entanto, no decorrer do livro, Lizzy
percebe que o que tomou como arrogância
era apenas timidez e Mr. Darcy passa a
ser visto com novos olhos. Em Bridget
Jones, é também a arrogância
e orgulho de Darcy que separam os dois,
primeiro quando não a defende no
jantar dos advogados e depois quando se
recusa sequer a dar uma resposta, ou satisfação,
quando Bridget lhe pergunta se ele tem
um caso com a colega de trabalho. Um simples
“não é nada disso, blablabla”
teria evitado a separação
mas sem isso não havia filme, eu
compreendo.
Darcy
é um homem bem parecido, sério,
com uma expressão fechada de quem
pensa muito, bem vestido, bem sucedido,
preocupado com os direitos humanos, um
homem reconhecido pelos seus pares, com
uma bela casa, educado, inteligente, com
dinheiro, um homem que luta para que este
seja um mundo melhor, um homem que diz
que nos ama pelo intercomunicador mesmo
sabendo que vai ser gozado pelos putos
que estão no café ao lado,
um deus do sexo (como a própria
Bridget lhe chama, acho que a expressão
é esta), um homem que nos diz que
gosta das nossas “partes moles” (que incluem
banhas, flacidez e celulite) e melhor
que isso, di-lo com sinceridade, um homem
que quando lê as barbaridades que
escrevemos no nosso diário sobre
ele nos oferece um novo para que possamos
começar do 0, um homem que corre
o mundo inteiro num avião para
nos tirar da cadeia mesmo estando chateado
connosco e convencido de que andámos
a dormir com o seu pior inimigo, um homem
que não entra em pânico e
fica feliz quando dizemos: “se calhar
estou grávida”, um homem que bate
nos homens que nos tratam mal, um homem
que diz gostar dos nossos cozinhados mesmo
quando são intragáveis,
um homem que nos pede em casamento depois
de lhe fazermos a declaração
de amor menos romântica de sempre,
um homem às direitas, em suma,
um homem como Deus e a mulher quer.
Mas
como em tudo, tinha de haver um senão,
um homem assim só podia ser fruto
da imaginação não
de uma, porque mesmo uma não conseguiria
ser assim tão optimista, mas de
duas mulheres, Jane Austen e Helen Fielding.
Colin Firth tornou-o mais real, deu-lhe
corpo, deu-lhe voz, deu-lhe expressão,
e deu-nos a nós a esperança
de que tudo isto possa não ser
apenas uma ilusão e que há
para cada mulher um homem perfeito à
sua espera.
Publicado em Setembro de 2005