_ Estreias

_ Notícias + Gossip

_ O Caderno da Clarice

_ Clássicos

_ Apresenta

_ Zapping

_ Banda Sonora

_ Calendário

_ Film Stills

_ WWW

_ Passatempos

_ Eventos

_ Fórum

_ Links

_ Arquivos

_ Ficha Técnica

 

 

 

 

 

 

 


SLIDING DOORS
por Diana Martins Moreira


“I asked a simple question, there’s no need to become Woody Allen.”


As portas. Há sempre portas. E janelas. Desde que o homem constrói casas que o importante são as coisas que nos tiram delas. A porta de chegada e de partida. A porta do reino dos céus, se somos boa gente. As portas do Inferno, se por algum acaso cuspimos o chumbo dos dentes para a sopa da vizinha. As portas da transcendência, mas para estas é preciso inserir o psicotrópico (esta tem registo de autor e não é meu). As portas de hoje são de realidades paralelas. O que é um jogo muito, muito bom. Eu confesso que este é o filme das minhas ressacas emocionais. Acho que toda a gente devia ter um.



Quando a coisa não corre bem enfrasco-me de Gwyneth Paltrow nestes Instantes Decisivos para acreditar, por alguns minutos, que há realmente uma hipótese de mudança, que até nem depende de mim e que pode estar pronta a existir com um acaso qualquer. Ah. Se houver por aí crentes no destino desaconselho o filme, que ainda acabam a dizer que têm toda a razão e parvoíces afins. Mas, se forem como eu e não acreditarem em coisa alguma, estas teorias não vos deixam mais maluquinhos por as verem e é como um analgésico para a falta de fé (que sim, magoa, às vezes).

Não percebo bem o fenómeno, mas gosto muito de histórias onde as coisas se endireitam depois de andaram encalacradas nas curvas. (Deve vir no mesmo saquinho psicótico onde guardo o gosto por espremer pontos-negros e saber que aquele bocado de pele ficou limpo.)

Esta história é assim: Há um pseudo romancista, que é o ponto negro, mas dos bojudos. Imaginem. Dito em termos mais claros, o Gerry, é uma sangue-suga de gajo, fica em casa a fingir que escreve um romance enquanto ela trabalha para lhe dar comida que ele usa para ter forças para comer mais. A outra.

A outra, a Lydia, tem a mania que é esperta, mas lá está, o destino troca-lhe as voltas, que ela se fosse mesmo esperta não andava a tentar fanar o pamonha à Paltrow. Se fosse mesmo esperta, alegrava-se que esse, pelo menos esse, não era ela quem o tinha que aturar. Era trabalho para a outra pobre. E um belo dia, essa pobre, tinha na calha ser despedida. E foi. Estava de regresso a casa quando entra, não entra no metro:

Entra.

E chega a casa a horas e apanha os dois juntos na cama dela (ai Mónica Sintra). E depois vai morar com uma amiga e faz um corte de cabelo todo giro e conhece um tipo impecável que até a incentiva no consumo de batido de chocolate, porque é a única maneira de ter celulite de qualidade. Um tipo às direitas. Depois arranja um empréstimo e abre uma empresa de relações públicas e acaba por ficar com o brilhante James. Um bem disposto, sensível, que até cita Monty Python.
Não entra.

Nem nesse, nem no próximo metro porque a estação fechou devido a avaria. Vai apanhar um táxi e é roubada. Hospital. Chega a casa e a outra já se foi embora e ela, coitada, continua a ter que custear a existência do inválido mental. E vai procurar emprego e só arranja coisas em cafés, e faz sandes para levar aos escritórios. Uma miséria de vida. Finalmente, abre a pestana, quando a outra a chama até casa dela com uma desculpa manhosa e a confronta com delicada frase: estou a tentar decidir se vou ter o filho do teu namorado, ou não.

Depois a vida dela(s) volta ao eixo e pára de se dividir, porque já se encontrou aquilo que o destino queria, tanto numa, como na outra vida de Helen: O fim do pacóvio e o inicio do James, com uma nova carreira para a coisa são ser demasiado homo-dependente.

É um filme revigorante. Além de ter diálogos giros, giros. Inclui:
Ataques ligeiros ao Elton John.
Comentários certeiros sobre coreografias de grupo: There's loads of them...having some sort of sponsored epileptic fit!
Categorização de reacções obtusas: For God's sake, Gerry. I asked you a simple question; there is no need for you to become Woody Allen.

E para fechar em grande, um diálogo que vos pode ser útil, em muitas situações (para mim é):
James: Remember what the Monty Python boys say.
Helen: "Always look on the bright side of life"?
James: No, "Nobody expects the Spanish Inquisition."







Publicado em Setembro de 2005