LET'S LISTEN TO THE TRAILER
por Gabriela Ferreira
Ultimamente,
tenho reparado que os filmes tendem a
contar-se a si próprios nas apresentações.
A nata da nata das cenas e falas do filme,
editadas cuidadosamente, estão
a dar lugar aos clichés narrados
por vozes quentes.
O
que é feito do brilhante início
“In a world…”? Não faz qualquer
sentido na maior parte das vezes, mas
ajuda a criar aquela distância do
nosso mundo e aquela ilusão de
que vamos entrar numa realidade paralela,
seja um filme de ficção
cientifica passado no ano 3019 ou uma
comédia romântica entre a
chefe de charcutaria e um repositor de
um supermercado. Neste género,
serei a única a sentir falta do
típico “A man… A woman…”? Não
é esta frase importante? Eu acho
que sim. Generaliza qualquer história
de amor entre um homem e uma mulher, pode
ser um drama, pode ser uma comédia,
tal como na vida real a coisa dá
certo ou errado, e ainda contextualiza
melhor a história quando descreve
as personagens. “A man, a woman… he’s
afraid to commit, she´s tired of
being single…”.
E
depois de apresentadas as personagens,
não era tão bom quando nos
diziam “He/she is going to learn…”? Podia
ser a chefe de charcutaria a aprender
que lá por ele ser apenas um repositor
de tostas no corredor dos pequenos-almoços,
não quer dizer que não o
posso amar; podia ser um herói
a descobrir que afinal estão a
tentar matá-lo; podia até
ser um advogado a descobrir que a única
coisa justa seria libertar um culpado…
não interessa especificamente o
quê, mas é reconfortante
saber à partida que a personagem
vai ser posta à prova e aprender
algo com isso.
Já
o “Be Afraid!” não faz falta. O
que acontece quando alguém nos
diz, “vou-te contar uma coisa, mas não
te podes rir”? O mais certo é não
conter uma gargalhada sonora e pedir desculpa.
Pois, os “engenheiros dos trailers” sabem
disso e usam-no nos filmes de terror do
género pipoca. Convém que
se esteja mentalizado para o medo, caso
contrário não se dá
por nada. E mesmo com o processo de interiorização
já é difícil. Por
isso, convenhamos que este cliché
bem pode mesmo desaparecer. Ah! E quando
se ouve a deliciosa mentira “Like you’ve
never seen before”? Um filme de acção
como nunca foi feito antes, uma comédia
tão brilhante que nunca nos rimos
tanto… e afinal é mentira! Ou já
foi feito ou o que traz de novo bem podia
ter sido deixado na gaveta.
O
único cliché que não
desaparece é o “Oscar winning actor/actress”.
Talvez porque por outras palavras queria
dizer: “por favor, vejam este filme, pagámos
milhares a esta pessoa e precisamos de
bons resultados de bilheteira”.
O
problema de os filmes se contarem a si
próprios, estando nós já
habituados a estas frases-chave, é
às vezes nos venderem uma coisa
e ser outra. Pensamos que vamos ver um
grande filme, mas afinal… Ou pensamos
que é uma estopada, mas depois…
Sem nenhum esforço, lembro-me de
um exemplo, A Vila de M. Night Shyamalan,
esse grande filme de terror que depois
não era bem isso. O lado positivo
é às vezes no lugar de um
trailer termos quase uma curta-metragem.
Aqui, lembro-me de In The Mood For Love
e 2046 de Wong Kar Wai.
Publicado em Setembro de 2005