_
Estreias


_ Notícias + Gossip

_ O Caderno da Clarice

_ Clássicos

_ Apresenta

_ Zapping

_ Banda Sonora

_ Calendário

_ Film Stills

_ WWW

_ Passatempos

_ Eventos

_ Fórum

_ Links

_ Arquivos

_ Ficha Técnica



 


SEMPRE QUE BRILHA O SOL NAQUELA PRAIA
por Joana Linda


Estávamos em 1989, os salva-vidas viviam a sua vida como de costume, completamente alheios àquilo que se passava numa televisão perto de si. O primeiro episódio de Baywatch fazia a sua estreia na televisão americana ameaçando mudar as vidas de todos quantos algum dia já usaram um fato-de-banho ou calções vermelhos. Se até então os homens e mulheres mais desejados das praias portuguesas eram os que passavam gritando: "olhóooooo gelaaaaaado, é frutóoooo chocolaaaaaaate", "Olháaaa língua da sooooogra!" ou até mesmo "Olháaaa bola de berliiiiiiim", a década de noventa trouxe mudanças radicais ao areal. O símbolo da Olá, a promessa de Um Corneto Para Mim Um Corneto Para ti, tudo isso empalideceu perante o emblemático uniforme vermelho de lycra e as curvas e contra-curvas de Pamela Anderson, Yasmine Bleeth, Gena Lee Nolin ou Carmen Electra. Não mais um homem alto e de peito peludo correndo na praia foi apenas um homem alto e de peito peludo correndo na praia, mas sim uma reminiscência ambulante de Mitch Buchannon, o homem que mais personagens kitch deu à televisão do mundo, esse grande mito dos caracóis, não, não estou a falar do Marco Paulo mas da next best thing, David Hasselhoff.

Greg Bonnan, nadador salvador profissional, tinha uma ideia, ou melhor, tinha um sonho, um programa de televisão sobre as aventuras e desventuras dos nadadores salvadores nas praias. Quando Doug Schwartz , produtor de televisão, casou com a sua irmã, lembrou-se, assim como quem não quer a coisa, imagino que durante um daqueles almoços de família, de partilhar a sua ideia com o cunhado. Vá-se lá saber porquê, se calhar já tinha bebido demais ou tinha-lhe caído mal o almoço, o cunhado, juntamente com Michael Berk, produtor executivo, achou que aquilo tinha pernas para andar e que a combinação areia+ondas+babes+homens em acção era a fórmula do sucesso. Propuseram então o projecto à produtora de Grant Tinker, que se calhar tinha comido a mesma coisa ao almoço, que gostou e vendeu a ideia à NBC como um telefilme de duas horas chamado "Baywatch: Panic At Malibu Pier", transmitido no dia 23 de Abril de 1989.

 

O sucesso desse filme levou a NBC a pegar na ideia e transformá-la numa série de acção que foi para o ar pela primeira vez logo no dia 22 de Setembro do mesmo ano. Ao contrário do que estão a pensar, não, não começou aí a viagem para o sucesso. Depois desta primeira série, a NBC resolveu cancelar a série porque achou que aquele era um tema que se iria esgotar rapidamente. Além disso, Baywatch era um alvo fácil tanto para os críticos como para o público em geral, e tudo aquilo foi rapidamente transformado numa imensa anedota forrada a silicone, o que desagradou Hasselhof (não percebo porquê, por aquela altura já deveria estar habituado) Curiosamente, a série começou a passar noutras estações de televisão e teve um grande sucesso, o que lhe valeu uma segunda oportunidade. Quando a Shawn Weatherly, a actriz que fazia o papel de Jill, decidiu abandonar a série de vez, os produtores aproveitaram a sua saída para adicionar novos condimentos, mais especificamente um ataque de tubarão. Tendo sido esse o episódio com mais audiência, Baywatch levou uma reviravolta, a pouco e pouco foi-se afastando da série de acção para se tornar uma série mais humana, dizem eles, o que aumentou a sua popularidade.


Ao longo de dez anos a série aguentou-se firme, sobrevivendo a todas as mudanças de elenco, operações plásticas e outras contrariedades, tendo chegado a ser a dada altura a série mais popular do mundo, vista em todos os continentes menos na Antárctida (provavelmente porque os habitantes de lá não se conseguiam identificar com pessoas em bikini.) A fórmula criada pelos três amigos parece ter sido mesmo eficaz e apesar de ter sido mais parodiada que aclamada, foi a série que mais tempo esteve no ar sem nunca ter recebido nenhum Emmy, é impossível não a referenciar quando se fala de televisão nos anos 90. É também impossível dizer Baywatch sem dizer Pamela Anderson. De todas as nadadoras a passar pelo ecrã foi sem qualquer sombra de dúvida a mais famosa e a que se tornou a imagem da série. A playmate mais famosa de sempre, foi a mulher que mais vezes apareceu na capa da Playboy, parece ter sido feita para o papel de C.J. Parker e durante os anos 90, conheci muito poucos rapazes que não sonhassem um dia ser salvos por ela e pelas suas impressionantes bóias de salvação, if you know what I mean.

A série com mais silicone de todas as séries, levou a que se olhasse para os nadadores salvadores de outra forma. Lembro-me na altura de ver reportagens no telejornal com verdadeiros nadadores salvadores portugueses contando as suas experiências e dizendo se as coisas eram realmente assim ou não.

Bastava olhar de relance para perceber que não, eles feios, elas gorditas, o vermelho menos vibrante, a praia menos cheia de gajas boas, uma desilusão compensada por histórias de verdadeiro heroísmo contado na primeira pessoa. Lembro-me também de os nossos nadadores salvadores começarem a usar o mesmo equipamento que os da série, as célebres bóias vermelhas que podiam ser vistas nas mãos de Mitch e companhia, passeavam-se agora pelas mãos dos heróis da vida real e o telejornal fazia mais uma reportagem de cada vez que era adquirido novo equipamento remotamente parecido com o usado na série. Podemos nunca mais ver um novo episódio de Baywatch (graças a Deus), poderemos ter que gramar com os antigos todos os anos na televisão até a Pamela and friends terem 80 anos e até o silicone já ser flácido, mas uma coisa ficará para sempre tão viva quanto as marés, esse sonho adolescente de que em todas as praias haja uma loira mamulhada ou um matulão de peito cabulo e sorriso nº36 para tomar de nós ...

 



Publicado em Julho de 2005