DESPERATE
HOUSEWIVES
ou ROLE PLAYING GAMES PARA DOMÉSTICAS
por Diana Martins Moreira
O
fenómeno à séria vai ser
quando descobrirmos que a maior parte das trintonas
já nem consegue olhar para a personagem
e lembrar-se da vida que leva. Vai antes vivendo
a vida de acordo com o que espera que a sua personagem
faça. O role playing para domésticas.
Dificilmente uma Senhora Dona Almerinda desta
vida se interessava em ser um híbrido humano
dragão com poderes para congelar o espaço,
mas se a proposta for uma senhora suburbana, contentada
e higiénica nos seus afazeres, a coisa
já pega. E pega porque elas são
tão engraçadinhas, tão elegantes
e tão infelizes. E a tristeza fica sempre
melhor com rímel.
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Quando
já se ganhou as solteiras com o Sexo
e a Cidade, importa ganhar as casadas e
as mal casadas e as adulteras e as cornudas
e as desgraçadas e as atarefadas
e as "coça-me aí q'eu
não chego". Elas são
para tudo. Para romance, humor, mistério,
drama. Elas são até para acção.
Logo nos primeiros episódios um dos
murros mais hilariantes: Ele chega a casa
brinca com os três fedelhos from hell
e manda-os jogar futebol para o relvado
(retirado dos flinstones). Depois diz-lhe
que tem saudades e leva-a para o quarto
(retirado de Arlequim & Julia). |
Ela
diz-lhe: "vais ter que usar preservativo",
ele responde: "Não. Arriscamos!"
e logo ali Zás - retirado sabe-se se lá
donde, ou de um episódio do sr. Chuck Norris
(que vai dar ao mesmo) - um murro nos queixos
de fazer dobrar para rir. É que esta parte
também conta. E muito. Esta pequena independência
é um "agarra a dona-de-casa".
É assim que se perpétua o mito da
super mulher, com estas séries onde elas
conseguem cuidar de si, dos filhos, da casa, dos
trabalhos e até se defendem quando já
se torna abuso. Esta é a parte mais importante
porque anda tudo à procura de um exemplo
a seguir e elas dão esse exemplo com as
suas vidinhas mais-ou-menos misturadas com as
tramas da morte misteriosa da Mary (retirado de
Ficheiros Secretos ou mr. Lynch).
Ainda
é capaz de ser cedo demais para dizer se
o fenómeno nos toca como tocou a Laura
Bush, porque bem vistas as coisas um T1 na Venda
Nova ou uma vivenda ajardinada nos subúrbios
de classe dos E.U.A. ainda têm algumas diferenças.
De qualquer forma podemos já escolher (e
até nos vendem t-shirts) qual das donas
de casa queremos ser.
Primeiro temos a Mary Alice, que é quem
nos conta todas as histórias a partir do
seu cantinho no além. Excluída a
suicida (Mão Morta ponham os olhos nesta
frase refrão) ficamos com a Susan (Teri
Hatcher), que é divorciada e mãe
solteira, que tem uma vontade indomável
de encontrar alguém, nem que seja para
depois fazer dele pano e poder esfregá-lo
na cara do ex-marido, mas sempre com muita doçura.
Temos
ainda, e sem querer ofender, a mulher esfregona,
Lynette (Felicity Huffman), a mãe
dos três estarolas que largou uma
carreira de sucesso para poder comprar fraldas
e gomas à grande. Há também
a arrepiante Bree (Maria Cross). Esta é
do género barata porque se ambas
sobrevivem a ataques nucleares, esta tem
a vantagem de só precisar de um espanador
e um bocadinho de blush para se recompor.
Ainda temos uma ex-modelo, Gabrielle, que
tem "todas as coisas que sempre quis"
e percebe que "nunca quis as coisas
certas". |
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Esta é a melhor prova de que a produção
da série é bem cuidada, é
exactamente este o tipo de frase que eu sempre
espero ouvir da boca de um qualquer modelo nacional.
Encaixa-se. Depois, para fechar o pacote, a Edie
(Nicollette Sheridan) a tipa que, volta não
volta, arca com as culpas, nem que seja pela cor
do cabelo.
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Obviamente
esta soap aditiva é da autoria
da senhora... Marc Cherry. Ok. A senhora
autora é um homem. Mas ninguém
disse que só um dos géneros
era capaz de deslindar os desafios coquetes
das stay at home women. O facto de ser
um homem a escrever o guião até
vem sublinhar a eventualidade verídica
dos episódios. Afinal de contas
alguém as deixou desesperadas.
Ele deve saber quem.
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Publicado em Junho de 2005