THE OFFICE
por Gabriela Ferreira


A rotina diária de um escritório de Slough serve de enredo a “The Office”, uma das mais brilhantes séries de comédia da BBC. Da recepcionista ao director, não trabalham neste espaço senão personagens de ficção que nos fazem rir do mais absurdo e idiota que é possível encontrar em pessoas reais. Em “The Office” não escapa nada. Temos os pseudo-romances acanhados típicos de qualquer ambiente laboral, as piadas pornográficas obrigatórias para quem trabalha com computadores ligados à internet, as festas decadentes de Natal ou de simples promoção de convívio entre colegas e o patrão-palhaço, o genial David Brent, interpretado pelo co-autor e co-realizador, Ricky Gervais.

A série surgiu quando Stephen Merchant, o outro autor e realizador, estava a estagiar na BBC e lhe foi pedido que fizesse uma curta-metragem num dia. Stephen lembrou-se de uma personagem que o seu amigo Ricky usava para divertir as pessoas quando ambos trabalhavam na rádio londrina XFM e resolveu usá-lo no projecto. A estética de documentário, uma das melhores características da série, surgiu por uma questão de tempo, era a forma mais rápida de filmar a curta. E o resto é história… a BBC pediu-lhes um guião, a curta transformou-se num episódio piloto e depois no primeiro episódio de “The Office”.

David Brent é a estrela do escritório. Os sorrisos idiotas que faz para a câmara seriam suficientes para fazer rir qualquer um, mas há muito mais do que isso. Inconveniente, com um sentido de humor ridículo, limitado de ideias e cultura geral, mas com uma auto-estima gigantesca (ou talvez não), Brent protagoniza alguns dos momentos mais hilariantes da série. Por exemplo, quando acusa a recepcionista Dawn de roubar post-its ou quando interrompe o almoço desta para lhe dizer que pensava ter encontrado um caroço nos testículos.

Ou ainda quando finge estar a despedir um vendedor e na realidade telefonou para o serviço horário. Ou ainda (os exemplos são tanto que poderia continuar nisto mais umas vinte páginas) quando passa grande parte de um episódio à desgarrada com Ricky (Ben Bradshaw) sobre os livros de Dostoievsky. No documentário que acompanha o dvd da primeira série, percebemos que David Brent tem muito de Ricky Gervais. Este é descrito pelo co-autor da série como o homem mais irritante que conhece, opinião corroborada pelos actores. Raramente uma cena consigo saía ao primeiro take, porque Ricky fazia questão de se rir da genialidade dos seus guiões ou porque distraia os outros actores com improvisações.

Mas Brent não é o único palhaço de serviço. Também temos o seu braço direito na empresa, Gareth (Mackenzie Crook). Um homem que esteve no exército mas que tem medo de gelatina porque não confia na forma como esta se mexe e que não hesita em dizer a todos os colegas numa acção de formação, quando interrogado sobre a fantasia da sua vida, que seria duas lésbicas, irmãs e ele a ver. Ao lado da secretária de Gareth senta-se Tim (Martin Freeman). Um homem solitário e algo amargurado, apaixonado pela recepcionista, Dawn (Lucy Davis), que está noiva.

Entre as partidas que prega a Gareth e aos outros colegas e os momentos embaraçosos com Dawn, destaca-se a cena em que a convida para sair, pensando que ela e o noivo tinham acabado, e ela responde que continua noiva.

Entre os diálogos, os “talking heads” descomprometidos de Tim, os carregados de metáforas militares de Gareth e os completamente descabidos de Brent, os planos de corte limitam-se a planos, ora gerais, ora de pormenor, de pessoas a trabalhar. Toda a equipe de “The Office” é composta por actores profissionais (ironicamente, à excepção de Ricky Gervais) e um deles, inicialmente figurante, conseguiu depois maior destaque, o Keith da contabilidade (Ewan Macintosh).

“The Office” conseguiu também reinventar-se ao longo os episódios. O mais provável seria que a rotina de um escritório, filmada numa estética de documentário, se esgote rapidamente. Mas Ricky Gervais e Stephen Merchant conseguiram que sobrevivesse sem nunca perder um pingo que fosse de qualidade. Se o início é justificado como sendo um documentário sobre um escritório, a série transforma-se depois num follow up das pessoas e do próprio escritório. Brent sai da empresa e torna-se vendedor de produtos de limpeza e lança um single, uma cover da música “If you don’t know me”, com direito a vídeo que é um dos melhores momentos de toda a série e a direcção é assumida por Gareth. Tim consegue tornar-se numa personagem ainda mais amargurada e de uma forma ainda mais estranha. Em parte, porque Dawn não deixa o noivo e emigra ilegalmente para os Estados Unidos.

“The Office” é uma série para ser consumida sem restrições. Ensina-nos a rir de nós próprios e deixa-nos rir abusivamente dos outros sem sentimento de culpa. No formato dvd é obrigatório passar pelas cenas eliminadas, tão geniais como qualquer outra inserida nos episódios, mas que por coerência estética e narrativa foram deixadas de fora. Para terminar, dois segredos sobre o dvd da primeira série.

Disco 1: No meu inicial, quando ouvirem o toque de um telefone primam “play” e terão acesso à filmagem completa de David Brent a cantar “Free love on the free love freeway”, cena parcialmente incluída no episódio 4.

Disco 2: No menu das cenas eliminadas, escolham a crítica ao poema “Slough”. Quando a luz se apagar primam “play” e poderão ver “Who cares wins” na íntegra, vídeo que é mostrada na acção de formação que acontece no episódio 4.



Publicado em Maio de 2005